Feed icon

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Vivência Percussiva e Tambores do Pacoval - Soure - Marajó - PA

Em agosto do ano passado, embarquei num curso de percussão aos domingos, debaixo da jaqueira do Centro Comunitário Tiradentes (CCT) na Marambaia. O mestre Flávio Gama e a mestra Antônia Ribeiro conduziram estes encontros, e assim foi surgindo o grupo batizado de Vivência Percussiva Debaixo da Jaqueira. Fui com a expectativa de aprender novas batidas para a batucada feminista da Marcha Mundial de Mulheres, mas acabei encontrando um espaço terapêutico, de reconexão com nossa ancestralidade através do tambor, de trocas de boas energias, novas amizades e com o incentivo dessas estou me tornando uma batuqueira :)
Divulgação do Passeio
Começamos a sair debaixo da jaqueira, recebemos convites pra batucar por aí, transmitindo a cultura popular, os tambores, o carimbó, de forma descontraída, com muita alegria. Foi realizado o Jaca Fest no CCT em 2018, levamos os tambores para o Bloco A do básico na UFPA,  e este ano na Praça da República no evento do Janeiro branco, dedicado à saúde mental, e nos Batuke de Kintal na casa da Maria.
Chegada em Soure
Nestas idas e vindas, resolvemos fazer novas conexões. Juntar minha experiência organizativa de pic-nics da galera do trabalho com o belíssimo trabalho que o mestre Flávio iniciou há 10 anos no bairro do Pacoval, em Soure, os Tambores do Pacoval. Assim nasceu a experiência de Vivência Percussiva pelo Pará, com um belo pontapé inicial para o Marajó!
Fomos num grupo de 30 pessoas, entre participantes da vivência percussiva, amigas do trabalho e amigos do Bruno Brabo que estava fazendo aniversário no dia 02/02 e aproveitou para comemorar a data conosco.
Embarcamos na lancha Golfinho, com horário de saída às 8:40h, porém saímos às 9h. A passagem custa R$ 48,00, vale a pena, super confortável e chega direto no porto de Soure. Chegamos lá às 11h e um microônibus fretado exclusivamente para o nosso passeio nos conduziu à praia do Pesqueiro.
Esquentando os tambores
Minha amiga D. Rose (preta velha de muita sabedoria que tenho o privilégio de trabalhar junto) nos deu a dica de irmos logo para esta praia devido a festa de Iemanjá que iria acontecer a partir do meio dia por lá. Foi de fato uma valiosa sugestão!
Chegamos num clima nublado, estamos em pleno inverno paraense, mas curtimos bastante a praia, compartilhamos nossas farofas e quitutes, muitos registros e uma batucada de leve pra esquentar.
A maré tava seca, mas não nos impediu de curtir as belas paisagens, bons papos e muita música para embalar nossa tarde.
Festa de Iemanjá no Pesqueiro
Começaram os fogos, ao longe o som dos tambores. Estava dando início à festa de Iemanjá do terreiro da D. Fátima. Não demorou muito e avistamos a linda embarcação com a imagem da rainha do mar, a oferenda que seria lançada ao final do ritual. Ela foi transportada ao barracão que estava em nossa direção mais à frente, impossível não ir lá apreciar a festa.
Impressionante o toque do tambor dos atabaqueiros do ritual, os tambores todos pintados de azul celeste, tambores de Iemanjá!
Muito emocionante ver tanta gente mantendo viva sua tradição, respeitando sua ancestralidade, dando luz às suas crenças, fazendo seus pedidos, agradecimentos e toda a boa energia e vibração que a gente sente nesses momentos. Foi um privilégio à parte participar dessa festa!

Praia do Pesqueiro

Mas chegava o momento de partirmos para o Pacoval, já se aproximava o horário de início da nossa oficina de percussão e precisávamos seguir a programação. Difícil mesmo é ir embora de um lugar tão lindo e vivendo momentos tão especiais!
Depois de todos embarcados no microônibus, tive que retornar para entregar os pertences da amiga Lu que haviam levado por engano, foi aí que recebi meu presente: O barco oferenda de Iemanjá surgiu na minha direção e o registro só ficou na minha memória, junto com meu agradecimento e meu pedido. Eu voltei só pra isso, pra contemplar sua ida para o mar, junto com a esperança e a gratidão de todos aqueles que a miravam. Odoyá, rainha Iemanjá!

Na Associação dos Moradores do Pacoval foi dado início à oficina de percussão com o Mestre Flávio Gama e a Mestra Antônia Conceição, que abriu com exercícios de alongamento.

Alongamento com Mestra Antônia

Todos foram pegando os instrumentos para participar da oficina e quem nunca tocou um tambor na vida ficou entusiasmado em poder tocar numa gira tão linda que se formou! Diversos ritmos e técnicas que de forma muito simples o Mestre Flávio transmite para os viventes.

Mestre Flávio no comando da vivência percussiva
Em seguida, foi a vez da Mestra Antônia nos mostrar as técnicas com as maracas e agbês. Instrumentos que a princípio parecem simples de tocar, mas que exigem muita concentração, ritmo e métodos pra acompanhar o toque dos tambores.

Diva das Maracas - Mesta Antônia
A oficina encerrou-se no início da noite, com uma grande roda de parabéns ao aniversariante do dia, Bruno Brabo! Rolou os parabéns, muito bolo, suco e comidinhas! Muito axé em sua vida!!! Um privilégio comemorarmos esta data ao meio de tantas boas vibrações e muito toque de tambor!!!

A noite só estava começando, pois logo em seguida deu início a festa tradicional de todos os sábados da Associação de Moradores do Pacoval. O grupo de carimbó Tambores do Pacoval, com a ilustre presença do Mestre Diquinho, foi o ponto alto do final de semana!

Mestre Diquinho
Mestre Flávio fez fala de agradecimento, fazendo um relato sobre o resgate do carimbó naquela comunidade, que se deu após a realização de oficinas de percussão pelo mesmo há 10 anos. Mestre Diquinho recebeu as honrarias e os integrantes do grupo Tambores do Pacoval também fizeram suas falas e relataram os trabalhos que são realizados na Associação. 


Vivência Percussiva e Tambores do Pacoval
Encantador o bailado das dançarinas de carimbó, de todas as idades, com um passo específico da dança que vai até o chão, e que os homens também dominavam com maestria! Um grupo de senhoras da terceira idade ensaiam durante a semana e todos os sábados vão bailar nesta festa, girando suas lindas saias floridas! O aniversariante foi desafiado a dançar até o chão, e não fez feio! Assim como todos os presentes na festa também se viram desafiados a acompanhar. Um intercâmbio cultural inesquecível!!!

Arthur no comando do curimbó
No dia seguinte, momento de partida e despedidas. Tínhamos programado para esta manhã passeio para Praia da Barra Velha, mas acabou virando roda de carimbó na casa da Lu, pois a chuva da noite inteira ainda persistia, sem chance de trégua! Após o café, o som do tambor começou a ecoar e logo se aproximaram os garotos da comunidade ansiosos pra batucar!
Todos ficaram impressionados com a habilidade do pequeno Arthur ao tocar curimbó. Sem parecer fazer grande esforço, o menino tocava de forma intensa, encantando a todos que estavam presentes na casa. Era o próprio Rei Arthur do Carimbó! Hehe! Nos empolgou de tal maneira que nos atrasou na saída para a praia!

Aproveitamos a oportunidade para também conhecer o atelier de cerâmica marajoara do Mestre Ronaldo, com peças belíssimas, e conversar com a D. Solange, foram nossos anfitriões que nos receberam com muito carinho nesta comunidade! 

Fica nosso imenso agradecimento por tudo que vivemos e nossa admiração pelo belo trabalho desenvolvido! E nosso muito obrigado à Luciene, que chamamos carinhosamente de Lu, por ter disponibilizado sua casa para nos hospedar. Esperamos voltar mais vezes a este lugar maravilhoso, de gente simples e aguerrida!


Rumo à Praia da Barra Velha
Antes de partir de volta à Belém, a chuva cessou, o sol timidamente se abriu e fomos conhecer a Praia da Barra Velha. Por sugestão do amigo Bruno, fomos à parte da praia que fica logo depois do mangue, sendo necessária uma boa caminhada pela ponte, que acaba sendo um atrativo à parte para contemplação da natureza.

Não existem palavras pra descrever a beleza dessa praia! Nosso único lamento foi não poder ficar mais tempo para aproveitar essa beleza marajoara, só conseguimos pedir o almoço e nos arrumar para pegar a lancha no porto do Camará, ficando aquele super gostinho de quero mais. 

Chegamos no horário no porto e tudo deu certo, foi uma ótima viagem e só fica a saudade e muita gratidão por tudo que vivemos, foram lindas experiências, amizades, a boa convivência em coletivo e laços que se formaram! Aguardamos ansiosos a próxima viagem da Vivência Percussiva pelo Pará!

*Todas as fotos deste passeio estão disponíveis no álbum, que pode acessar clicando aqui.*

Viventes Percussivos :)


Praia da Barra Velha




sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Resumo: O Estado e a Revolução - Lênin

Resolvi postar esse resumo ao conversar com meus amigos de Fortaleza sobre os acontecimentos nesta cidade que sempre me dá saudade, delegacias e viaturas da polícia incendiadas, a violência do crime organizado contra o Estado e a diferença disso com as estratégias da esquerda, lembrei desta obra de Vladimir Ilyich Ulyanov, conhecido pelo pseudônimo Lênin, "O Estado e a Revolução", em que afirma que a substituição do Estado burguês pelo proletário é impossível sem revolução violenta.
Fiz resumo somente do 1º capítulo sob orientação da Profª Zuleide Pontes, na ocasião que cursei Sociologia I - Marx no curso de Ciências Sociais UFPA. Mais uma vez, sempre grata por esta mestra!
Segue então este pequeno aperitivo para leitura da obra completa a quem interessar depois ;)
Também encontrei um resumo bem bacana, que disponibilizo link aqui.

Resumo de: LÉNINE, V. I. O Estado e a Revolução. 1ª Ed. São Paulo: Alfa e Ômega, 1980.

A sociedade de classes e o Estado

Este primeiro capítulo da obra de Lênin inicia com o subtítulo “O Estado, produto do caráter inconciliável das contradições de classe” em que discorre sobre as deturpações da obra de Marx, declarando que se repete o mesmo ritual em que as classes opressoras perseguem, calunia em vida o autor e depois de sua morte tenta transformar em ícone inofensivo, conceder ao seu nome uma certa glória para consolar as classes oprimidas, castrando o conteúdo da doutrina revolucionária. Neste caso, o arranjo do marxismo encontram-se agora a burguesia e os oportunistas dentro do movimento operário, afasta-se o lado revolucionário da doutrina e coloca-se em primeiro plano aquilo que é aceitável ou o que parece aceitável para a burguesia.

Tomando este conhecimento, o autor descreve qual a tarefa diante desta situação, que consiste ante de mais nada em restabelecer a verdadeira doutrina de Marx sobre o Estado e para isto é necessário apresentar toda uma série de longas citações das próprias obras de Marx e de Engels, reconhecendo que será uma exposição pesada, sem caráter popular, mas impossível passar sem elas. 

Assim, começa pela análise da obra de Engels: A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, citando o que o mesmo entende por Estado, um produto da sociedade em determinada etapa de desenvolvimento, a admissão de que esta sociedade se envolveu numa contradição insolúvel consigo mesma, se cindiu em contrários inconciliáveis que ela é impotente para banir. Ou seja, claramente o Estado é o produto e a manifestação do caráter inconciliável das contradições de classe. É neste ponto essencial que o autor afirma que inicia a deturpação do marxismo, seguindo em duas linhas principais.

Os ideólogos burgueses e especialmente pequenos burgueses de um lado, obrigados sob a pressão de fatos históricos incontestáveis a reconhecer que o Estado existe apenas onde existem contradições de classe e luta de classes. “Corrigem” Marx de tal maneira que o Estado aparece como um órgão de conciliação de classes, mas segundo Marx o Estado é um órgão de dominação de classe, um órgão de opressão de uma classe por outra, é a criação da ordem que legaliza e consolida esta opressão moderando o conflito de classes. Segundo a opinião dos políticos pequeno-burgueses moderar o conflito significa conciliar. Lenin denuncia que todos os socialistas-revolucionários e mencheviques na revolução de 1917 caíram inteiramente na teoria de “conciliação”, tornando prova evidente de que os mesmos não são de modo algum socialistas, mas democratas pequeno-burgueses com uma fraseologia quase-socialista.

No segundo subtítulo “Destacamentos especiais de homens armados, prisões, etc.” trata da característica primária do Estado, de divisão dos cidadãos segundo a região, obedecendo a velha organização gentílica, vista por Engels. Divisão esta que parece natural, mas exigiu longa luta contra a antiga organização por gens ou tribos. Por seguinte, a característica de instituição de um poder público, um poder público especial e necessário porque desde a divisão de classes se tornou impossível uma organização armada espontânea da população. Engels desenvolve a noção desta “força” que se chama Estado, consistindo fundamentalmente em destacamentos especiais de homens armados tendo à sua disposição prisões, etc.

Continua a desenvolver o raciocínio da questão da necessidade de destacamento especiais de homens armados devido a divisão da sociedade em classes inconciliavelmente hostis e coloca que o poder público reforça-se na medida em que se agudizam os antagonismos de classe no seio do Estado e na Europa da época a luta de classes e a concorrência de conquistas fizeram subir o poder público a um plano em que ele ameaça devorar toda a sociedade e mesmo o Estado. Segue descrevendo as guerras fruto desta concorrência de conquistas.

O terceiro subtítulo “O Estado – instrumento de exploração da classe oprimida” vem explanar sobre a lógica de impostos e dívida pública para manutenção deste poder público especial, além da situação privilegiada dos funcionários como órgãos do poder de Estado.

Uma observação pertinente do autor sobre Engels repousa na constatação de que a república democrática é o melhor invólucro político do capitalismo, e por isso o capital, depois de ter se apoderado deste invólucro, que é o melhor, alicerça o seu poder tão solidamente, tão seguramente, que nenhuma substituição, nem de pessoas, nem de instituições, nem de partidos na república democrática burguesa abala este poder.

E encerra dizendo que a sociedade que de novo organiza a produção sobre a base de uma associação livre e igual dos produtores remete a máquina de Estado inteirinha para onde então há de ser o lugar dela: para o museu de antiguidades, para junto da roda de fiar e do machado de bronze.

Por fim, no quarto e último subtítulo “A ‘extinção’ do Estado e a revolução violenta”, o autor denuncia a essência da falsificação habitual do Marxismo pelo oportunismo através das palavras de Engels frequentemente citadas em relação ao que disse sobre a “extinção” do Estado, mostrando ponto a ponto quais são essas citações.

Primeiro enfatiza o que Engels fala de “supressão” do Estado da burguesia pela revolução proletária, ao passo que as palavras sobre a “extinção” se referem aos resíduos do Estado proletariado, depois da revolução socialista. O Estado burguês, segundo Engels, não “se extingue” mas “é suprimido” pelo proletariado na revolução. O que se extingue depois dessa revolução é o Estado proletário, ou um semi-Estado. 

Segundo tratando do Estado como força especial para repressão do proletariado pela burguesia deve ser substituída por uma força especial para a repressão da burguesia pelo proletariado (a ditadura do proletariado). É nisso que consiste a supressão do Estado como Estado.

Terceiro trata da etapa seguinte, da tomada de posse dos meios de produção pelo Estado em nome de toda a sociedade, depois da revolução socialista, os oportunistas não tratam de extinção da democracia, pois ela também é um Estado, e que, consequentemente, a democracia desaparece quando desaparece o Estado.

Quarto. Ao formular a sua famosa tese “O Estado extingue-se” Engels explica logo que esta é dirigida tanto contra os oportunistas como contra os anarquistas. Quinto e último ponto trata da importância da revolução violenta, “Que a violência, porém, ainda desempenha outro papel na história, um papel revolucionário, que ela, nas palavras de Marx, é a parteira de toda a velha sociedade que anda grávida com uma nova. Só com suspiros e gemidos admite a possibilidade de talvez vir a ser necessária a violência para o derrubamento da economia de exploração – infelizmente!”

O autor encerra concluindo que a substituição do Estado burguês pelo proletário é impossível sem revolução violenta e aponta que fará análise da doutrina de Marx e Engels que realizaram um desenvolvimento pormenorizado e concreto dessas concepções.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Dúvida

Não sei se te quero
Ou se me quero
Apaixonada, louca
Desvairada
Sei que senti saudade
Da energia, da utopia
Do amor e da amizade

Eu continuo sem saber
E não sei quem o dirá
Serás tu ou será eu
Que irá nos condenar
A viver de intensa paixão
Ou deixar de fantasiar
Calando em meu peito uma ilusão
Que insisto alimentar

Se te quero ou não
Nem eu mesma sei dizer
Saudade de ti ou de paixão?
É só mais uma confusão
Que a vida vai resolver.

Tirando onda com as palavras e rimas fáceis no finalzinho do natal.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Vontade

Que vontade de um beijo
Beijo com paixão
Que esquenta o corpo
E os lábios, todos
Apaga as tristezas
Consola as feridas
De estremecer a libido
E traz gosto de vida
Beija
Abraça
Agarra
Esfrega
Suspira
Sussurra
O gozo, delícia
Ah, como queria!
O sabor de uma lambida

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Mulheres negras e as eleições 2018

“A mulher negra é a síntese de duas opressões: a de gênero e a de raça. Isso resulta no tipo mais perverso de confinamento. Se a questão da mulher avança, o racismo vem e barra as negras. 
Se o racismo é burlado, geralmente quem se beneficia é o homem negro. 
Ser mulher negra é experimentar essa condição de asfixia social”. Sueli Carneiro

Segundo dados do mapa da violência elaborado em 2015 pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), o homicídio de mulheres negras aumentou 54% em 10 anos, enquanto que o de brancas reduziu 10% no mesmo período, além de evidenciar que a mulher negra também é a maior vítima de estupro. Mas por que as negras são as maiores vítimas?

Assim como os demais países latino-americanos, o Brasil ainda sofre com o racismo estrutural e estruturante em nossa sociedade, fruto de uma cultura escravocrata e colonialista. A população negra não recebeu nenhum tipo de atenção ou política de integração com o fim da escravidão, sendo jogados à margem da sociedade. Para as mulheres negras a situação é pior, pois além de serem vítimas de racismo, sofrem com a violência sexista, sendo utilizadas como objeto sexual por séculos, formando uma cultura que se arrasta até os dias atuais. Herança escravocrata. Escravidão modernizada. As antigas amas de leite e mucamas hoje são cozinheiras, governantas, lavadeiras, babás. E quando o corpo é negro, os indicadores retratam a agressividade do racismo: as mulheres pretas com baixa escolaridade são a maioria na categoria trabalho doméstico, têm os piores salários, as condições de trabalho mais precárias e predominam como chefe de família. Em resumo, a camada social mais pobre e marginalizada é a que mais sofre com a violência.

O movimento feminista protagoniza a luta por direitos das mulheres e a articulação das mulheres negras no movimento é essencial para dar direcionamento à construção de políticas públicas que atendam este segmento, haja visto que as estatísticas apontam as mulheres negras como as mais fragilizadas em nossa sociedade. 

Diversas políticas e ações foram implementadas pelos governos do PT desde 2003, visando garantir direito e proteção às mulheres, como a criação de um ministério de políticas para mulheres, criação do bolsa família com titularidade preferencial às mulheres, o Ligue 180 em defesa da mulher, a lei Maria da Penha, lei do feminicídio, licença-maternidade de seis meses, mulheres proprietárias no programa Minha Casa, Minha Vida e a lei dos empregados domésticos, que alcança diretamente as mulheres negras como já foi mencionado e que necessitam de atenção tanto pela garantia de seus direitos, como políticas que as façam ter outra perspectiva para além do trabalho doméstico. Neste sentido, a ampliação do acesso ao ensino superior e programas de ampliação do número de creches para que essas mulheres possam deixar seus filhos em local seguro, com cuidados, permitindo que possam trabalhar, garantindo assim sua autonomia financeira e possam escapar do ciclo da violência doméstica. Apesar da implementação dessas políticas, as mulheres negras ainda não foram alcançadas de forma satisfatória, sendo necessária a ampliação dessas políticas com olhar específico à realidade das negras, e não o retrocesso.

A partir do golpe em 2016, com a deposição da primeira mulher a presidir nosso país, acompanhamos a avalanche de perdas de direitos e aprofundamento da crise econômica que também recebeu estímulo da instabilidade política provocada após o resultado das eleições em 2014. Nestas eleições de 2018, é notório o avanço conservador e a defesa de mais retrocessos nas políticas para as mulheres, que ganhou eco através da candidatura de Jair Bolsonaro. Este enquanto deputado federal votou a favor do corte de investimentos em educação, saúde e segurança através da Emenda Constituicional nº 95, votou a favor da reforma trabalhista que entre as perdas aos trabalhadores merece destaque o dispositivo que permite o trabalho insalubre para grávidas e lactantes, foi contra a lei das domésticas e está há quase 30 anos no congresso nacional sem apresentar um projeto sequer de defesa de direitos às mulheres ou de combate à corrupção, que o mesmo propaga ser o grande defensor. 

Além disso, ele defende a diferença salarial entre homens e mulheres pelo fato das mulheres engravidarem, é favorável a redução do tempo da licença maternidade e afirmou que seus filhos não casariam com uma mulher negra por terem sido “bem educados”. Como se não bastasse, seu discurso tem gerado uma onda de violência provocada por seus seguidores que sentem-se legitimados a cometer crimes de intolerância pelo discurso de seu candidato, como exemplo os casos de estupro de mulheres que não concordam com o posicionamento deste candidato, o assassinato de uma travesti à facadas em São Paulo aos gritos de “Bolsonaro” e “Ele sim”, grupos neonazistas que afloram principalmente no eixo sul/sudeste, e a violência da retórica que representa esta candidatura às mulheres negras.

Mas afinal, o que é o fascismo? Por que a candidatura de Bolsonaro é considerada fascista e ameaça as mulheres negras?

O fascismo é um movimento político, econômico e social. Ele se desenvolveu em alguns países europeus no período após a Primeira Guerra Mundial. Principalmente naqueles que enfrentavam graves crises econômicas, como a Itália e a Alemanha. Entre as principais características desse sistema estão a concentração do poder nas mãos de um único líder, o uso da violência e o imperialismo.

Segundo o filósofo e historiador Norberto Bobbio, o termo fascismo se refere principalmente à sua dimensão histórica. Esta, constituída pelo fascismo italiano e posteriormente pelo fascismo alemão. Na Alemanha, no período após o fim da Primeira Guerra Mundial, surge um regime autoritário bastante conhecido, que compartilhou diversas características do fascismo. Esse regime é o nazismo, que teve como principal líder Adolf Hitler. A ditadura de Hitler teve como principais características a militarização da sociedade alemã, a exaltação do líder e o controle através da intensiva máquina de propaganda, que utilizava os meios de comunicação para disseminar as ideias nazistas.

As características principais do nazismo são apresentadas na obra Mein Kampf, escrita por Hitler durante seu período na prisão. Uma das suas mais conhecidas medidas foi o antissemitismo, marcado pela visão racista e eugenista da superioridade do homem branco germânico, a chamada raça ariana. Essa visão resultou na morte de mais de 6 milhões de pessoas em campos de concentração, a grande maioria formada por judeus. 

Simone de Beauvoir elenca as características de opressão às mulheres com os movimentos fascistas/nazistas, como: -Valorização extrema do ser masculino e suas características, como um nacionalismo, mas aplicado aos sexos/gêneros; -  Culto à força física, enaltecendo os homens e suas “capacidades”, consequente controle, abuso e violência contra as mulheres; -Censura, como silenciamento das mulheres;-  Antidemocrático, o poder concentrado nas mãos dos homens enquanto classe; -  Violência, ódio à mulher e ao que ela representa, misoginia.

Ela afirma também que basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Conforme avança o fascismo, as mulheres são as primeiras a terem seus direitos roubados, principalmente negras. Somos as primeiras a perderem os empregos, a violência contra a mulher aumenta, assim como o feminicídio. O fascismo matou diversas mulheres ao longo da história, a exemplo das irmãs Mirabal, Olga Benario e, mais recentemente, Marielle Franco.

A exaltação de grupos sociais em detrimento de outros é marca do discurso de diversos seguidores de Jair Bolsonaro, que prega o ódio aos homossexuais, negros, mulheres e nordestinos, desta forma as mulheres negras entram na mira da discriminação pelo racismo, machismo, além da perda de direitos conquistados com muita luta.

Precisamos dizer não ao avanço de ideias retrógradas, preconceituosas e violentas, tomarmos posição em defesa da democracia, pela pluralidade de ideias, preservando a liberdade de expressão e a legalidade de reivindicar direitos. Por isso, devemos derrotar Bolsonaro nas urnas para que possamos seguir na luta por avanços e direito das mulheres! Vamos votar em Haddad & Manu 13 para que possamos retomar as políticas e ações em defesa dos direitos das mulheres, em especial as mulheres negras, lutando não só pela garantia e permanência das mesmas, mas pelo avanço necessário para proteção das camadas mais fragilizadas da sociedade brasileira.

A luta contra o fascismo não termina nas eleições, precisamos ampliar nossas mobilizações nos bairros, universidades, escolas e locais de trabalho. Somente a organização das trabalhadoras e trabalhadores, das mulheres, da juventude, será capaz de destruir esse sistema que nos mata todos os dias.

#EleNão #BolsonaroNão #HaddadeManuSim #PelaDemocraciaVote13


Fontes:
http://pretadoidaescreve.blogspot.com/2018/07/dia-da-mulher-negra-latino-americana-e.html
http://nosmulheresdaperiferia.com.br/noticias/trabalho-domestico-mulheres-negras-sao-a-maioria-na-categoria-e-tem-os-piores-salarios/
https://www.politize.com.br/fascismo-entenda-o-conceito-2/

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Resumo: O segredo da acumulação primitiva - Marx

Segue resumo do 1º capítulo da obra de Karl Marx: A origem do capital: A acumulação primitiva. 2ª Ed. São Paulo: Centauro, 2014. Elaborei na ocasião em que cursei a disciplina Sociologia I - Marx na faculdade de ciências sociais da UFPA, ministrado pela maravilhosa Profª Zuleide Pontes.

O segredo da Acumulação Primitiva

No primeiro capítulo desta obra, Karl Marx inicia o texto com a definição de mais-valia, pois define que a acumulação capitalista supõe a existência da mais-valia, e esta, a da produção capitalista que, por sua vez, não se pode realizar enquanto não se encontram acumuladas, nas mãos dos produtores-vendedores, massas consideráveis de capitais e de forças operárias. Este movimento ele coloca como círculo vicioso que não se pode sair sem se admitir uma acumulação primitiva anterior à acumulação capitalista, a “previous acumulations” segundo Adam Smith.

Faz o comparativo desta acumulação primitiva e seu desempenho na economia política ao pecado original na teologia, o pecado surgiu por uma aventura onde podemos ver como e porque o homem foi condenado pelo Senhor a ganhar seu pão do suor do seu rosto, mas a do pecado econômico preenche uma lamentável lacuna revelando-nos como e porque há homens que escapam a esta ordem do Senhor, pois ganham seu pão do suor do rosto alheio. 

Marx descreve o processo de acumulação primitiva baseado nos anais da história real, em que sempre prevaleceu a conquista, a dominação, a rapina à mão armada, o predomínio da força bruta, como a tomada de terras e propriedades rurais de populações originárias. Faz a crítica também aos preconceitos burgueses imbuídos nos livros de história e a diferença da definição deste processo contido no que ele descreve como manuais beatos de economia política, onde reina o idílio, onde nunca houve outros meios de enriquecimento senão o trabalho e o direito. Desta forma, ele faz uma leitura crítica dos acontecimentos para definir o surgimento da acumulação capitalista.

Para facilitar o entendimento, discorre sobre os diferentes atores no sistema capitalista, colocando por exemplo que a relação oficial entre o capitalista e o assalariado é de caráter puramente mercantil e que a essência do sistema capitalista está na separação radical entre o produtor e os meios de produção e vai se acentuando na medida que o sistema se estabelece. Assim, para que o sistema capitalista viesse ao mundo foi necessário que os meios de produção já tivessem sido arrancados sem discussão aos produtores por meio da força, e esta ordem econômica surge das entranhas da ordem econômica feudal. A dissolução de uma produziu os elementos constitutivos da outra.

Por fim, coloca que a base de toda a evolução é a expropriação dos cultivadores e que ocorreu de forma mais radical na Inglaterra, e os outros países da Europa ocidental percorrem o mesmo movimento. Na história da acumulação primitiva, faz época toda revolução que serve de alavanca ao avanço da classe capitalista em vias de formação sobretudo aquelas que, despojando as grandes massas de seus meios de produção e de existência tradicionais, as lançam de improviso no mercado de trabalho, haja visto que sem seus meios de produção se vêem obrigados a vender o único bem que restou, que é sua força de trabalho. E acrescenta que a história dessa expropriação está escrita nos anais da humanidade com letras indeléveis de sangue e fogo.

A expropriação da população primitiva

Neste capítulo o autor descreve o processo de expropriação da população primitiva na Inglaterra, onde a servidão tinha desaparecido de fato nos fins do século XIV. No século XV a imensa maioria da população era composta de camponeses livres e neste tempo a prosperidade das cidades tomou um grande impulso, atingindo um estado de abundância. Porém esta riqueza do povo excluía a riqueza capitalista.

Ao final do século XV e início do século XVI veio a revolução que ia lançar os primeiros fundamentos do regime capitalista, o licenciamento da numerosa criadagem senhorial que lançou de improviso, no mercado de trabalho, uma massa de proletários sem lar nem pão. O poder real, saído ele próprio do desenvolvimento burguês, foi levado a ativar esse licenciamento por medidas violentas, usurpando os bens comunais de camponeses e expulsando-os do solo que estes possuíam com o mesmo direito que seus senhores. O principal motivo foi a expansão das manufaturas de lã em Flandres e a alta dos preços de lã, que incentivou a transformação das terras de cultivo em pastos.

Esse processo de expropriação desolou o país e atemorizou o Parlamento, pois resultou num declínio da população, seguido da decadência de muitas vilas e igrejas e de uma diminuição dos dízimos. Através de lei de Henrique VII, que proibia a demolição de toda casa de camponês a que correspondessem pelo menos vinte acres de terra, foi o remédio encontrado para dar limite a esta expropriação, assegurando uma porção de terra suficiente para proporcionar aos indivíduos o gozo de um decente bem estar e condição não servil. Mas o sistema de produção capitalista precisava, ao contrário, da condição servil das massas, sua transformação em mercadoria e a conversão dos seus meios de trabalho em capital.

O novo impulso à expropriação violenta do povo no século XVI veio com a Reforma e confiscação dos bens da Igreja, que era proprietária feudal da maior parte do solo inglês. Os bens do próprio clero caíram nas garras dos favoritos reais e foram vendidos a preços ridículos a burgueses e arrendatários especuladores, que expulsaram os antigos colonos hereditários. O direito de propriedade dos camponeses pobres sobre uma parte dos dízimos dos eclesiásticos foi tacitamente confiscado.

Chegou ao poder o herói burguês Guilherme III, através da revolução gloriosa, e inauguraram a nova era com uma delapidação verdadeiramente colossal do tesouro público. Os domínios do Estado, roubados até esta data com moderação, foram então extorquidos à viva força do rei adventício com compensações devidas aos seus antigos cúmplices, ou vendidos a preços irrisórios, anexados a propriedades privadas. Esta foi a base de poder da atual oligarquia inglesa, os burgueses capitalistas favoreciam a operação com o fim de fazer da terra um artigo de comércio, de aumentar sua reserva de proletários do campo, etc.

A nova aristocracia latifundiária era aliada natural da nova bancocracia, da alta finança, recentemente nascida, e das grandes manufaturas, então fatores do sistema protecionista. Seus atos de rapina se prolongaram para além do século XVI e no século XVIII a própria lei se torna objeto de espoliação, o que, por outro lado, não impediu que os grandes arrendatários recorressem a outros recursos particulares, extralegais.

A forma parlamentar do roubo é de “leis sobre fechamento das terras comunais”, reduzindo o cultivo, fazendo subir o preço das subsistências e conduzindo ao despovoamento. A situação das classes inferiores do povo piorou sob todos os aspectos, os pequenos arrendatários e proprietários foram reduzidos a situação de jornaleiros e mercenários, e ao mesmo tempo, nessas condições, lhes é mais difícil ganhar o sustento.

Marx segue descrevendo o mesmo processo em terras da Escócia e em rodapé a situação na Alemanha, e encerra o capítulo resumindo que os despojos dos bens da Igreja, a alienação fraudulenta dos domínios do Estado, a pilhagem dos terrenos comunais, a transformação usurpadora e terrorista da propriedade feudal e mesmo a patriarcal, em propriedade privada moderna, a guerra às cabanas, foram os processos idílicos da acumulação primitiva. Conquistaram a terra para a agricultura capitalista, incorporaram o solo ao capital e entregaram à indústria das cidades os braços dóceis de um proletariado sem lar nem pão.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Resumo: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo - Weber

Seguindo na linha compartilhando os resumos feitos no decorrer do curso de Ciências Sociais da UFPA, venho disponibilizar este que fiz em 2017 na disciplina Sociologia III - Weber, com a professora Patrícia da Silva Santos, uma fofa! Foi uma disciplina bem proveitosa!

O resumo tem 17 laudas e pode ser acessado ao clicar na imagem abaixo