Feed icon
Mostrando postagens com marcador Feminismo em mim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Feminismo em mim. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Minha Dissertação - Negras no Topo? Paridade de raça e gênero nos cargos de direção do Partido dos Trabalhadores

Mais uma etapa concluída! Terminei meu curso de mestrado em Estado, Governo e Politicas Públicas na Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais - FLACSO em parceria com a Fundação Perseu Abramo.
O mestrado é direcionado aos filiados e filiadas do Partido dos Trabalhadores, por isso, em retribuição, fiz minha pesquisa sobre o PT e algo que me atinge: o lugar da mulher negra nos cargos de direção. Foi um trabalho muito interessante, pude conhecer mais sobre as origens do partido e também sua realidade atual, ficando somente a frustração de não receber os dados nacionais para um estudo mais completo.
Essa foi a oportunidade que tive de cursar um mestrado, diante das concorridíssimas vagas nos programas de mestrado das universidades públicas, além da impossibilidade de participar das aulas presenciais, já que não tinha direito a licença aprimoramento. O curso era semi-presencial, turma de Santarém, seria também uma excelente oportunidade de visitar Santarém para assistir as aulas presenciais, o que acabou não acontecendo, pois minha turma de 2020 atravessou a pandemia de COVID-19 e as aulas e todo o processo do curso ocorreu de forma virtual. Mas conseguimos concluir o curso!

Enfim, agora é alívio e gratidão por ter vencido!

O trabalho finalizado pode ser acessado clicando AQUI.

segunda-feira, 20 de março de 2023

Campanha pela vida de todas as mulheres: lutas, conquistas e desafios - Magis Brasil

Março é mês de luta das mulheres e abrindo o mês, no dia 1º, tive a oportunidade de representar a Marcha Mundial das Mulheres na live de abertura da Campanha pela vida de todas as mulheres: lutas, conquistas e desafios, do Programa Magis Brasil. Pude falar um pouco da história de luta das mulheres junto com minha companheira de Marcha, Marcele de Paula, e sobre as pautas do movimento feminista, destacando o feminismo negro e a importância da articulação política de mulheres para o combate à violência e avanços em políticas públicas. 

O momento contou com a participação de Clara Mabeli e foi mediado por Emiliana Pacheco, ambas do Programa Magis. Agradeço muito pela acolhida, pelas trocas e desejo muito sucesso na campanha!

O bate-papo ficou registrado no Youtube e também disponível como podcast no Spotify.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

A solidão é minha única via

Tem momentos que me vejo triste, tão triste... é normal, pois que na vida não é possível a felicidade constante. Assim como tenho um montão de motivos para estar feliz, pra sorrir, também outros inúmeros motivos para entristecer. Em algum momento a tristeza vai chegar, é preciso estar preparada pra esse momento, pra que não venha tomar um espaço pra além da sanidade.

Me entristeço com a solidão, queria um colo e um bom sexo agora, não posso ter. Sinto um tesão enorme depois que estudo, após horas de leituras e escritas, um bom sexo cai bem... mas não tenho ninguém, me sobra a tristeza. Não sei se é mais triste isso ou ter alguém e mesmo assim não ter sexo, acho que ambos são tristes, tristezas diferentes.

A solidão é minha única via, caminho certo para evitar aborrecimentos, violência, desdém, abusos. A solidão como arma política. Tem um fanzine sobre isso quando a gente faz a busca, de Marcela Lagarde. O medo da solidão é impeditivo na construção de autonomia, porque desde pequenas nos formam um sentimento de orfandade e dependência, colocando a solidão como algo negativo. Mas foi a solidão que me ensinou a me amar e a dizer não ao que não preciso, ao que não quero e não é bom para mim, a não mendigar mais afetos. Talvez não alcance tanto a autoestima, pois por vezes entendo a solidão como preterimento, por não ser uma pessoa bonita e interessante. Interessante sei que sou, mas bonita nem tanto, estou fora dos padrões vigentes, acho que o estigma de “preta feia” nunca deixou de me acompanhar desde a adolescência, aprendi a conviver com ele e sei que deve ser um trauma a vencer.

Acho que não sei mais flertar, na verdade nunca soube, já levei tantos foras que tenho preguiça de arriscar mais um, e a solidão me acompanha assim, pois se não me lanço é que nada cai na minha rede. Já fui muito lanceira, me diverti muito, mas tbm me lasquei igual. Estou inerte, paralisada. A solidão da mulher negra se faz real para mim. Negra e mãe, além de tudo feminista, dona de si, eles não querem bancar.

E elas? Pq não falo delas? Pq tbm não aparecem. Quem sabe um dia eu viva algo bem inusitado e diferente, que me faça rever tudo isso, não sei, melhor não contar com nada... cansei de viver de sonhos e ilusões, de contos de fadas, agora eu sigo a realidade e minha realidade é essa, solidão de uma mãe preta cansada de sofrimentos e carente de cuidados, de afeto, de carinho e pq não, de sexo. Quem poderia cuidar de mim pelo menos um pouquinho? Não sei! Eu só sei é que não posso contar com isso e preciso seguir me cuidando, é o que me resta. Hoje entendo que não posso mais me escravizar em relações ruins pra suprir essa carência, e nem sucumbir aos contos encantados da metade da laranja e complementação, não se trata disso. É só o bom desejo de contato e trocas de energias que não são permitidos a mim, a nós, o afeto nos é negado e as relações saudáveis são uma loteria, assim se dá minha sentença nesse viver.

E tem sentenças pesadas para mulheres trans, gordas, com deficiência, idosas, e a cor negra intensifica a opressão. Lutar também é minha única via, para que essa realidade se transforme, que não sejamos mais inferiorizadas, mal tratadas, desrespeitadas, desprezadas. Somos humanas, sociáveis, cheias de energia, também merecemos amor e afeto sadios, satisfatórios, em diversas composições, acordos, cores e sabores! 

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Sim, sou mal-amada!

Existe um conhecido jargão que lança às mulheres quando estão irritadas ou mal-humoradas a alcunha de mulher mal-amada, relacionando a falta de sexo ao estado de stress que a mesma se encontra, e deixa implícita a mensagem de que a mulher para ficar bem e calma necessita de um falo que lhe dê prazer, e somente o homem seria capaz de cumprir esse papel. O famoso “isso é falta de homem” complementa a ofensa.

Pois bem, o fato é que grande parcela das mulheres são mal-amadas na real. Não somente pela falta de sexo, que faz parte da rotina de diversas relações, ou sexo de péssima qualidade, mas pelo tratamento que recebemos todos os dias de nossos companheiros homens. Faço parte do exército de mulheres mal-amadas, pois hoje sendo solteira e sem intenção alguma de assumir relacionamento, sou imediatamente direcionada ao papel de puta, objeto de uso e desuso, e deste modo sou assim tratada, sem respeito ou cuidado, já que não sou digna, e assim também opera o patriarcado sobre mim. É difícil encontrar sexo de qualidade quando o tesão desperta não somente pelo físico, pela química, mas também pelo caráter e inteligência.

E por falar em relacionamento, qual a mulher que convive com um homem que não teve que se irritar ou aturar a louça suja na pia, a cueca enrolada no chão, a privada suja, a “inaptidão” e “lentidão” para executar certas tarefas domésticas, fazendo com que a mulher assuma logo a tarefa de vez pra não se irritar ainda mais, que tem que lembrar o companheiro de todas as obrigações que são dele, do cuidado com as crias, do que elas necessitam, a ponto até de marcar a consulta do homem adulto junto ao médico, causando uma sobrecarga mental que é invisibilizada. Certamente que são pouquíssimas as que não passaram ou ainda passam por essas e outras situações! Pare e ouça com atenção as queixas de uma mulher casada e verá que a lista de situações irritantes e exaustivas é muito maior!

Somos subjugadas, controladas, humilhadas, violentadas, estupradas e até assassinadas por nossos companheiros, as estatísticas não me deixam mentir! As mulheres não são somente mal-amadas, são odiadas mesmo! A mulher negra ainda ganha mais uma camada de ódio, desprezo e humilhação, dado o peso do racismo sobre nossa existência. Foram muitos anos que nossos corpos foram animalizados, herança da escravidão, que manteve a comercialização de nossos corpos e com papeis determinados para exploração, seja sexual ou do trabalho doméstico.

Da próxima vez que disser (eu espero que não diga) ou ouvir que uma mulher é mal-amada, pense nisso que acabou de ler. Se tu amas mulheres, segue dando amor e muito mais amor, lutando para que sejamos bem-amadas, melhorando a cada dia, se observando e tomando atitudes que demonstrem amor. Não queremos somente palavras lindas, promessas, presentes ou juras de amor, queremos atitude! ATITUDE! Queremos ver a prática do dia a dia provando que existe amor e cuidado, diálogo e autocrítica, companheirismo e respeito.

Se tu, mulher, é bem-amada, que maravilha! É justamente isso que queremos pra todas nós! Seguiremos na luta por nossa felicidade, por nossas vidas, por nossas (re)existências! Que as mulheres sejam felizes e bem-amadas não só por seus parceiros, mas por todas as relações, que sejamos respeitadas e valorizadas, felizes sozinhas ou acompanhadas. Felizes!

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Maternidade: amor, solidão, imposição

Quando a mulher se entende com um útero, possuidora de um órgão que pode gerar outro ser dentro de si, sente em algum momento o dilema de querer ou não experimentar a sensação de gerar um filho. Daí é viver a dicotomia do cuidado e medo de engravidar cedo demais e mais tarde a angustiante contagem regressiva de um “relógio biológico”, como se tivéssemos um prazo de validade prestes à expirar. Esse dilema vem acompanhado de muitas questões e influências, principalmente ligadas à nossa socialização e modelo de sociedade que estamos inseridas. 

Para a maioria de nós, a maternidade é romantizada, é pintada de rosa todos os dias desde nossas brincadeiras de cuidar de bonecas até os filmes, animações, novelas e séries que transmitem a imagem do final feliz da mulher sendo mãe e formando uma família com seu príncipe encantado. A mulher que ousa apontar as desvantagens e crises reais do ser mãe e desse ideal perfeito de família tradicional é castigada por subverter essa ordem, recebe julgamentos depreciativos como amargurada, ressentida, mal-amada, frustrada, louca, doente. É preciso muita coragem pra contrapor a ordem vigente!

“Ser mãe é padecer no paraíso” escutamos desde cedo. O paraíso, eu como mãe posso afirmar, é o amor de uma criança, sentir o amor de uma criança é algo sem igual, sentir no olhar, no sorriso, nos gestos mais verdadeiros e sinceros que aquele serzinho tão pequeno e tão incrível, te ama de forma honesta e pura. Mas ouso dizer que esse amor, o de mãe, da maternidade, não é o maior, nem o mais intenso e único, é o amor da criança que te causa essa sensação. 

O amor de quem cuida e convive com uma criança intensamente, de quem é responsável por sua vida, uma tia, um tio, uma avó, um avô, padrasto, madrasta, ou até de alguém sem parentesco algum, pode ser tão intenso e protetor quanto de uma mãe. O amor nasce da convivência. Tu experimentas esse amor, por exemplo, quando tá na rua, passa por brinquedinhos de um camelô e já lembra da criança, quando sente saudade, quando se preocupa na doença, não quer vê-la sofrer e morre de medo de perder essa criaturinha. Enfim, acredito que esse amor pode ser experimentado na mesma dimensão, independente de ser mãe.

Outra situação são das mães que não sentem esse amor, seja por sofrerem com a depressão pós parto ou surpreendidas pela alta carga de demandas e responsabilidades que um bebê exige. A mulher se vê em crise, pelos julgamentos ou por sentir-se horrenda e monstruosa ao não corresponder essa lógica do "amor maior do mundo", por vezes não se percebem adoecidas e só intensificam seu estado de dor ao não buscar ajuda profissional. O mesmo julgamento cruel se dá com mães que abandonam os filhos, ao não considerar os fatores psicológicos, hormonais, sociais e estruturais que podem ter levado a essa atitude. Cada ser é único e experimenta as sensações de forma diferenciada, por isso a importância de parecer de especialistas ao invés de achismos ou execrações.

O amor, para além do sentimento, também é uma construção social, deste modo, o amor e o instinto materno nem sempre existiram nesses moldes na história da humanidade. A maternidade compulsória foi incorporada à nossa cultura com objetivos definidos e a coerção social, conceito de Durkheim, é um mecanismo utilizado na manutenção da cultura da maternidade compulsória, pois no modelo capitalista quanto maior for o excedente de mão de obra, maior também é a possibilidade de exploração dos seres humanos, que irão se submeter a qualquer oferta de trabalho por sua subsistência. 

Mulheres são as máquinas reprodutoras de mão de obra. A sociedade pressiona de diversas maneiras as mulheres para que sejam mães e formem família, tendo a romantização como arma das mais poderosas, que passa a ser utilizada de forma mais contundente a partir da queda da cultura dos casamentos arranjados nas sociedades ocidentais, em que entra em cena a união por amor, e o avanço da ciência com os métodos contraceptivos, que vieram a permitir à mulher escolher. Para manutenção da ordem, se faz necessário influenciar nessa escolha.

O romantismo nasce entre os séculos XVIII e XIX na Europa, junto com a transição para o sistema capitalista e pelas mãos da burguesia. E o dia das mães se oficializou no Brasil em meio ao seu processo tardio de formação do Estado capitalista industrial, início do século XX, e em sua comercialização, além do aquecimento da economia e do comércio, é vendido às mulheres que não existe amor igual ao de mãe, e a mulher que não vir a experimentar esse amor será incompleta, infeliz, sem amor, seca, e as que se negarem ser mães serão acusadas de egoístas. 

É com essa pressão que as mulheres que optam por não ter filhos têm que conviver e algumas acabam por ceder, arrependendo-se mais tarde. E as mulheres que não podem gerar filhos sofrem também com essa pressão, se culpam e se martirizam pelo castigo de nunca poderem sentir esse amor. Poderiam adotar uma criança, mas vem os argumentos de que não é a mesma coisa, tem que ter meu sangue, meu DNA, o do pai também, e um monte de imposição que só levam a um caminho: a mulher como ser reprodutor. 

Controlando nossos úteros e nossas decisões, somos conduzidas à reproduzir a qualquer custo. Outra ferramenta que reforça é a religião, na maioria cristãs, que encorajam o não uso de métodos contraceptivos, pois interromper a reprodução humana configura "pecado", no máximo uso da tabelinha e abstinência sexual, que além de pouco eficazes, não previnem de DSTs.

A realidade é que a mesma sociedade que nos empurra para a maternidade é a mesma que depois não vai nos dar uma lata de leite e nem cuidarão da criança para que a mãe possa trabalhar, estudar, viver. Aliás, viver é algo que não pertence às mães, pois a vida delas agora pertence aos filhos. “Meus filhos são a minha vida!” já ouviu isso? A anulação feminina com a maternidade é tão natural que torna-se imperceptível.

A maternidade é muitas vezes solitária. Uma criança exige atenção o tempo inteiro e essa atenção compulsoriamente é responsabilidade da mãe, pois “quem pariu Mateus que o embale”. Quer sair pra tomar um chopp com as amigas, mas tem um bebê? Vai passar por julgamento com certeza, mãe não tem direito ao lazer, maternidade é padecer, lembra? E isso se conseguir alguém pra “embalar o Mateus”.

“Mas se a criação for compartilhada com o pai e se tiver rede de apoio é mais leve!” Não é bem assim. Primeiro que mesmo com rede de apoio, ainda vai recair na mulher o maior peso da responsabilidade por tudo, e dinheiro não será impeditivo de sofrer com o machismo, os julgamentos e pitacos serão uma constante. E na real, na maioria, mulheres e famílias não têm condições de pagar por uma rede de apoio, restando muitas vezes para a mulher abrir mão do emprego ou entregar para a avó cumprir esse papel “por amor”. O cuidado feminino é pago com “amor”.

Por amor, mulheres cuidam da casa, da família, do marido, reproduzem mão de obra e criam pra entregar ao mercado, tudo isso sem remuneração, pois as tarefas domésticas não são vistas da mesma maneira que um trabalho formal, são vistas como cuidado, como amor, e o cuidado pertence às mulheres. O capitalismo e o patriarcado dependem desse trabalho. 

Ao interseccionar com raça e classe, observamos que as mulheres negras e pobres são as que mais assumem esse papel e de forma dupla, pois cuidam das suas crias e das de quem são pagas para cuidar, como babás e empregadas, com remunerações baixas e poucos direitos, lembrando que outrora, no período escravagista, nem remuneração havia. Não à toa a sociedade brasileira, racista e saudosa da escravidão, reagiu com muitas críticas em 2015 à legislação do trabalho doméstico.

Neste sentido, por vivermos numa sociedade estruturalmente machista e racista, não se consegue compartilhar de igual pra igual a responsabilidade de mãe e pai com sua cria, nosso papel consolidado de cuidadora nos faz naturalmente assumir maiores cargas de atenção do que o pai, e muitas vezes sem nem percebermos, nos culpamos se nos ausentamos e falhamos nesse papel. O peso da responsabilidade não é o mesmo, seja por preguiça e relaxo desse homem, seja pela conveniência que eles têm de não terem sido socializados da mesma forma que nós, e por mais maravilhoso e participativo que seja esse pai, muitas vezes nos vemos cara a cara com a solidão.

A solidão de quando ele sai pra trabalhar e estamos integralmente com uma criança em casa. A solidão de dar conta de tarefas que eles se negam a assumir, seja com a desculpa de não possuir habilidade, de que a mulher faz melhor, que está cansado do trabalho, mesmo que a mulher também tenha um emprego, ela não tem direito ao descanso. A solidão de não sermos lembradas pelas amigas e amigos quando estamos com uma criança. Ninguém quer fazer programa com quem tem criança, a não ser as amigas mães que estão na mesma, daí dá-se as mãos e se ajudam, e se a mãe for casada ainda é esquecida pelas amigas mães solos muitas vezes, por ter guardada a impressão de que a casada não está sozinha, ela tem uma família, tem um marido, tem companhia. 

Agora amigo pai pra fazer o mesmo, ainda não vi. Até porque raras vezes a gente vai ver um pai completamente sozinho com crias, eles sempre estão acompanhados e nem precisam nos procurar pra esse apoio. Observe por exemplo num parquinho quantas crianças estão acompanhadas de um homem sozinho e quantas estão com uma mulher sozinha. Eles quando estão no parquinho sempre têm companhia, mas muitas mulheres não.

Um homem pai sozinho é rapidamente assessorado, é visto como herói, de tão raros que são. A esposa, a mãe, a sogra, a namorada, a amante, uma amiga, sempre alguém se compadece de um homem sozinho com uma criança, inclusive ajudam por preocupação com a criança também, já que o papel de cuidado não pertence aos homens e a criança pode estar assim malcuidada. A não ser que ele negue essa ajuda feminina e resolva assumir tudo sozinho, o que é bem raro também, chega a ser exceção, pois sentem o peso da solidão, da responsabilidade e rapidamente podem vir aceitar as ofertas femininas de cuidado. 

É uma vantagem que não se enxerga, porque é naturalizada. Para a mãe, resta a força pra dar conta de tudo, o estigma das mulheres guerreiras. E quando entram em colapso pela sobrecarga, adoecem depressivas, são mais uma vez julgadas como fracas ou cruéis, egoístas por negarem-se a dar conta dessa missão divinal, uma fracassada.

Se chegaste até aqui, mana, deixo minhas sugestões: Se tu queres ser mãe, pesa tudo, pense no orçamento, nas atividades que deixará de exercer temporariamente por causa da criança, das anulações, leva alguns anos da vida. Se deseja dividir a criação com o pai na mesma casa, precisa pesar também a convivência com um homem, porque no final de tudo a carga maior vai ser tua, por mais alecrim dourado que ele seja, não tem como escapar disso porque a sociedade toda é estruturada pra ser assim, com o peso pesado para as mães, e a não ser que ele seja um ET, ele foi criado e socializado nesse mundo, com papeis definidos para homens e mulheres. E no momento que apertar peça ajuda, pois tu podes adoecer em qualquer momento, ou não. 

Se o casamento pesar mais que a maternidade, te causar mais problemas e infelicidade, caia fora! Por mais difícil que seja ou o tempo que leve, te organiza e vai embora, em algumas situações é caso de vida ou morte, infelizmente, mas pode ter certeza que vais dar conta muito melhor da tua vida e da maternidade sem esse peso!

Se tu NÃO queres ser mãe, mantenha firme tua decisão. Não mude de ideia pra agradar quem quer que seja, principalmente homem, só se for tua vontade mesmo, não imposição. Não ceda, porque depois na solidão vai bater o arrependimento, não do amor da criança, mas das anulações e privações que tu decididamente já estavas disposta a não querer passar e vais te amargurar por isso, sem volta. Se vier a engravidar mesmo assim, pese bem a decisão, pois é teu corpo e tua vida que vai mudar.

Importante entender que filhos não são poupanças para o futuro, nem posses, objetos ou em quem depositamos nossos desejos não realizados, é incerto apostar no “quem vai cuidar de mim na velhice”, seja pelo medo de ficar só, ou o filho vai se dar bem e te bancar, enfim, um mundo de expectativas e responsabilidades num ser que sequer pediu pra nascer. Filhos seguem a vida e não temos como controlar seus destinos. Medo de ficar só nos mete em ciladas, cuidado! Não há nada de aterrorizante em morar sozinha, nem de fracasso ou amargura, cultive sua autonomia, amor próprio e seja feliz!

Se tu queres ser mãe, já ciente de tudo que foi dito aqui, mas não consegue engravidar, adote uma criança, não exite! O amor é idêntico, é o amor de uma criança cuidada por ti, que vai te chamar de mãe do mesmo jeito. Sempre digo à minha filha que tudo que a gente cuida bem e dá amor fica bem, e sempre nos responde de alguma forma. Nossas plantas ficam bonitas, dão flores se bem cuidadas, e uma criança dá o amor mais puro, independente se saiu ou não da tua barriga. 

Nem cair em conversa de que a criança adotada pode vir com personalidade do pai ou mãe que tu sequer conheces. Caráter não vem em DNA, o ser humano é moldado em sociedade, de acordo com o núcleo social que vive, ele vê e repete, e assim como é moldado em casa, pela família, a sociedade também molda e apresenta diversas perspectivas, e mais uma vez não temos controle. Filhos podem ser bons ou ruins adotivos ou não.

E se não pode gerar e também não quer, não se martirize, nem se deixe abater. É difícil, mas infelizmente é essa a vida, precisamos nos defender e tentar viver da melhor forma. A maternidade compulsória, bem como a imposição do conceito de família tradicional, podem levar à realidade de violência, irritabilidade e frustrações. Uma criança precisa ser muito desejada e planejada, pois exige altas cargas de paciência, amor e estrutura para sua educação.

Que possamos refletir mais sobre essa escolha e que não nos permitamos adoecer por coerções sociais. Vamos sentir culpa, sendo mães ou não, por isso é importante ter noção da estrutura que nos dita as regras para não cair no jogo, assumindo culpas que não nos pertence, são impostas. Que nossos corpos e nossas decisões sejam livres! Força sempre às mulheres, é urgente descolonizar nossos afetos!

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Quando a gente não tem nada, o que era pouco te faz falta!

Essa é uma sensação muito ruim, sentir falta de algo que tu sabias que não era suficiente, que não te deixava tranquila, satisfeita, sempre um incômodo ou mais te rondando o peito, tirando a tua paz, mas mesmo assim, faz falta. Era a única coisa que tu tinhas, então vai fazer falta.

Ruim também é se contentar com pouco, até que chega um ponto que enche a paciência e se ousa optar pelo nada. É muito difícil optar pelo nada. Pra ficar bem bonito e positivo eu até poderia dizer: “Nada não! Vou ficar com a melhor companhia, eu mesma!” Ah, amada, mas não é bem assim que funciona. Sou humana, uma raça de seres sociais, eu sinto falta de afeto, de carinho, de atenção, de dialogar, de beijos, de sexo bom, um bom colinho... É muito duro aceitar que teu destino é ficar sem nada disso por sabe-se lá quanto tempo! Até os hormônios vão te cobrar!

É nesta lógica de pensar que mora a armadilha, nos vemos tentadas a não parar ou acabar voltando a comer as migalhas que recebia, afinal, seria melhor que passar fome. Porém precisamos arrumar forças pra lutar contra isso e resistir, buscar energia não sei de onde, eu sei que nós mulheres conseguimos encontrar, nem que seja buscando auxílio, mas encontra, o importante é encontrar forças pra vencer esse ciclo por nós mesmas, sem usar ou demandar uma outra pessoa, a não ser que seja um/a terapeuta pago/a pra isso.

A fase recente da decisão de romper com relações de “migalhas” é a mais desafiadora e delicada. Eu não sei se é muito absurdo eu fazer essa comparação, mas é como se fosse com as adicções, vícios. Parar de fumar, por exemplo, os primeiros dias são os mais terríveis, teu corpo pedindo nicotina, eita que até lembrei da Marrom cantando “meu vício é você, meu cigarro é você” hehe! De fato, não é absurda a comparação. 

Esses dias são determinantes pra seguir livre mais adiante, e com o passar do tempo os benefícios começam a aparecer e tu te sentes mais decidida a não voltar mais. Isso quando tu realmente entendes que, por mais que o desejo ainda permaneça, os benefícios que estás alcançando compensam, pois te fazem bem, te livra dos males que tinha. Importante saber que vai doer um tempo, respeitar e viver essa dor também é necessário, a gente chora, sofre, ouve as playlists mais absurdas, enfim, mas tem que superar! E pra ir superando, mais uma vez trago a cartada do amor próprio, recompor a dignidade e trabalhar esse autoamor, não tem outro caminho, minha gente! Fora que já tô cansada de servir, quero é ser bem servida de volta!

Sejamos fortes! Nos apoiemos! Somos foda e não merecemos migalhas! Ninguém merece! É procurar entender o que se quer pra ir em busca do que é melhor pra si. Desapegar e se permitir a mudar a história da tua vida, sem se culpar pela demora ou pela falta de força, cada ser é único e tem o seu tempo, nem ficar remoendo culpa pelos erros cometidos, é identificar, tirar lições, tomar o impulso de retomar as rédeas de si e ter paciência, pois vai ter tropeço sem dúvida, mas com coragem a gente vence!

domingo, 21 de junho de 2020

Ninguém se apaixona por "puta"

Ontem tava tomando uma cerveja na casa da minha amiga e vizinha Vivian, nos acompanhamos nessa quarentena. E dentre diversos assuntos e divagações, amigas sempre desabafam sobre a vida amorosa. A nossa é de muitos lamentos, como de muitas mulheres, mas sempre aquela vontade guardada de se apaixonar. É tão bom se apaixonar, né? Ganhar bom dia, boa tarde, boa noite, muitos carinhos, "como tu estás?", "eu vi isso e lembrei de ti!", "meu amor, estou com saudades, quero te ver!" Enfim, de ganhar esses mimos e sentir o gosto de uma paixão correspondida, porque se apaixonar a gente insiste sempre, mas se é correspondida é outra história.

Daí Vivian dizia que não adianta também a gente dizer que não vai se apaixonar porque isso é um engano, é algo involuntário, acontece. De fato, é algo que não temos domínio, não se manda no coração. Mas acordei agora bem filosofando, lembrando dessa parte da conversa, e penso que ninguém se apaixona por "puta", e assim sinto que somos, "putas". Só quem se apaixonou por puta foi o Richard Gere pela Júlia Roberts em “Uma linda mulher”, mas é um filme conto de fadas, né? Mesmo assim, o filme guarda uma pequena dose de realidade: a paixão é involuntária, o homem pode se apaixonar pela puta sim, mas ela vai ter que deixar de ser puta e se tornar posse dele.

Ah, Carla, mas não é isso que vocês querem? Uma paixão correspondida? Um amor pra chamar de “seu”? Qual é o problema então? O problema está no ser "puta" pra gente. No caso do filme é uma profissional do sexo que vai interromper sua profissão para casar e quem sabe arrumar outra profissão, ou não, pois o cara do filme é milionário, ela nem vai precisar, vai acabar virando uma puta exclusiva sabe-se lá por quanto tempo, nos contos de fadas dura para sempre. Mas aqui falamos de vida real. Não somos profissionais do sexo, vale ressaltar, e reconheço que as opressões e riscos que essas profissionais sofrem são bem diferentes do que sofremos por sermos mulheres de sexualidade livre. Minha intenção aqui não é ocupar um lugar de fala que não é meu, só justifico que acabo por me inserir na seara das “putas” porque é assim que nos enxergam e nos apontam, mulher livre é "puta" e não serve pra se apaixonar e ter “compromisso”. Eu que sou não monogâmica então, viro praticamente um E.T! Ou o que acabo sendo na prática, uma boa amiga pra conversar e pra transar.

Nessa minha lida de pesquisadora de humanas, penso na origem das coisas, vamos então à etimologia da palavra puta. Tem um apanhado bem legal nesse link do site Esquerda Diário, e venho destacar: No primeiro dicionário monolíngue do castelhano, datado de 1611, da Real Academia Española, puta é: “a rameira ou mulher ruim. Quase pobre, que sempre está quente e cheirando mal”. Deste ponto, o texto, com base nos argumentos de Silvia Federici, na obra "Caliban e a Bruxa. Mulheres, corpo e acumulação primitiva" convida a analisar o contexto da Europa de 1600, transição do feudalismo para o capitalismo, as mulheres recebiam muito menos que os já reduzidos salários dos homens e portanto se lançavam à prostituição para complementar a renda, bem como a Igreja Católica começa a caça às bruxas, atacando os direitos reprodutivos das mulheres e impondo a subordinação da esposa ao marido no âmbito familiar, formulando a divisão de mulheres em “a Maria santa e boa trancafiada em casa” e a “perdida Eva, pecadora e expulsa do paraíso”.

Portanto, a visão de “puta”, desde o século XVII, tem uma conotação moral que vai além da venda do sexo, do corpo, mas das mulheres que não estão submissas ao seu homem, sua paixão, seu amor. E por incrível que pareça, quatro séculos depois, esta visão se faz ainda presente, e não à toa, pois se mantém por força de algo poderosíssimo e estruturante para o funcionamento do sistema capitalista: o patriarcado. E por isso mulheres livres incomodam, são subjugadas, marginalizadas, humilhadas e por fim, sem direito ao amor. O amor é algo puro e digno somente a quem faz por merecê-lo. "Putas" certamente não merecem. Além de "puta" a juventude usa bastante o termo "bandida", que vai nesse sentido também da sexualidade livre, mulheres que rompem com o patriarcado estão de fato "fora da lei".

Não pretendo deixar de ser “puta”, nem "bandida". Vivian também não. Então disse a ela que não adianta vivermos amarguradas e nos impingindo sofrimento por não encontrarmos uma paixão correspondida, pois isso está pra além de nós, é uma questão estrutural e que não vai se transformar do dia pra noite. Não é a gente que tem o “dedo podre” e só acerta em cilada, é a sociedade machista que oferece poucas alternativas em encontrar um homem que consiga respeitar nossos desejos. O patriarcado é tão nojento que um dia desses navegando pelo mundo dos comentários nas redes sociais descobri o termo “escravoceta”, destinado aos homens que começam a compreender a problemática do machismo e a tentar realinhar suas condutas para nos garantir respeito, eles são simplesmente escravocetas! Como uma ofensa àqueles que decidiram “trair” o patriarcado. Gente, cadê meu escravoceta? Hahahaha!

Infelizmente numa sociedade machista precisamos nos adaptar para manter nossa identidade e aprender a ser felizes com o que temos. Pode ser que um dia apareça uma paixão maravilhosa e correspondida, pode ser que sim, nada é impossível na vida, já tem até os escravocetas! Haha! Mas assim, precisamos ter ciência que é uma possibilidade bem remota por conta das escolhas que fizemos dentro do contexto social que nos envolve, e também por outras questões que não vou me ater agora, como o fato deu ser preta e a Vivian gorda. 

Não podemos nos entregar à tristeza em não conseguirmos alcançar algo tão simples que é um amor correspondido, nem podemos mais seguir no engano de nos dar demais a alguém na esperança de conquistá-lo ou receber tudo de volta, nessa tentativa desmedida e carência absurda de ter um amor, influenciadas também por essa demanda da busca do ideal de amor romântico. Em nome do amor próprio é se dar na mesma medida do que recebe, saber valorizar e viver bem com os diversos afetos pra quem sabe um dia o acaso te premiar, ou não. Hoje, honestamente, tô evitando me lançar em paixões, por conta do que reflito aqui e com base no que já passei e sofri, me restam poucas esperanças em relações com homem hetero, muito ainda pra avançar!

Um dia isso muda, já observamos algumas mudanças graças ao avanço da luta feminista e isso nos anima a seguir lutando. São séculos de doutrinação e certamente é muito trabalho pela frente. Seguiremos firmes e decididas a não nos encaixar em padrões que não cabemos mais, honrando a luta de quem dedicou sua vida pra usufruirmos do que temos hoje. Amo ser "puta", pois para mim "puta" hoje significa ser livre! Se quiser me amar, me ame assim ou viva lá seus padrões confortáveis de relação e me deixe em paz! Garanto que não sabe o que tá perdendo! 😉

sábado, 20 de junho de 2020

A cruel pedagogia do coronavirus para as mulheres

Publiquei um vídeo no meu Instagram e Facebook fazendo análise desta mais recente obra do Boaventura de Sousa, falando mais específico para as mulheres e as negras, meu lugar de fala.



Como recomendei a leitura, venho compartilhar o pdf desse livro, só clicar na imagem abaixo:




quarta-feira, 17 de junho de 2020

Foda-se

Passei uma vida inteira
Achando que eu não podia
Não sou bonita
Não sou capaz
Vou ser agredida
Era o que sempre me dizia

Não tenho peito
Não tenho bunda
E nem nasci pra poesia
Até bater uma siririca
Era algo que eu não sabia
E tudo foi guardado, censurado
Eu só entendia que não devia

Não se pode chamar palavrão
Nem "trair" o seu mozão
Se for assumir o teu "beckão"
Vai sofrer muita sanção

Geme alto quem é puta
Se tiver pêlo é porque é suja
Pois pra ser respeitada
Tem que ter uma conduta
Essa é a face do machismo
Que te julga e te culpa

Mas foda-se quem se incomodar!
Eu vou gemer, eu vou fumar, e vou gozar
E vou escrever, vou me mostrar
Quer um boleto meu pra pagar?

Eu pago o preço por me amar
Pois eu entendo hoje, mulher
Que a gente precisa se libertar
Cada uma no seu tempo
No tempo que precisar
E eu vou estar aqui pra te apoiar!

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Como o dia dos namorados te atinge?

Mais uma vez o feminismo me salvou! O feminismo liberta! Parece até coisa de “palavra da salvação”, né? Mas também não deixa de ser um tanto disso pra mim que passei muitos anos da vida, antes de conhecer o feminismo, me culpando por ser sempre preterida, viver triste por isso e ser tomada pela tristeza no tão propalado dia dos namorados.

Eu sou aquela que recebe muitos elogios e ao mesmo tempo me sentia uma merda. Os muitos elogios geralmente eram pra conseguir me comer mesmo ou pra de uma forma não muito dura ser dispensada de uma relação mais séria. Sou uma ótima amiga, inteligente, engraçada, boa de cama, enfim, uma ótima companhia, MAS, não dá pra levar mais adiante porque não estou preparado pra isso (não muito depois a pessoa aparece namorando), ou já sou comprometido, ou um você é muito especial e merece coisa melhor, uma gama de desculpas que quem é mulher e tá lendo, já sabe como é. 

E digo isso com a certeza de que boa parte das mulheres, em especial as negras, já ouviram e viveram essa história, sempre existe esse “mas”, não é? Pois é, só que antes do feminismo eu me culpava por isso, eu achava que era pelo fato deu ser uma “preta feia”, apelido que foi “carinhosamente” escrito num quadro na sala de aula bem na frente da cadeira onde eu me sentava no ensino médio. Tentava encontrar outros atributos então em mim que fossem mais palatáveis, ou que me tornassem mais desejável, pra me sentir aceita. Eu podia ser feia, mas era gostosa, boa de cama, era um diferencial, e o que me ajudou de fato, estudar. Eu podia ser feia, mas era inteligente, tinha muita leitura, escrevia bem, teria uma boa conversa, mesmo assim, o “mas” não deixava de me acompanhar.

Dia dos namorados então, nossa! Lembro de quantas vezes desmereci essa data, do quanto anulei, do quanto tirei por menos, denunciava como uma data comercial (o que não deixa de ser verdade também), mas no fundo morrendo de vontade de ganhar um buquê de rosas, pois nunca ganhei na vida um buquê de rosas (se bem que hoje preferiria ganhar uma roseira pra poder cultivar sempre as rosas, sou a louca das plantas atualmente), ou doida de vontade de escrever cartas românticas, que gosto muito, pensar num presente, numa surpresa, como fiz das quatro vezes que tive dia dos namorados com alguém nesses meus 24 anos de vida sexual ativa.

Hoje a data não me machuca mais e nem preciso mais maldizê-la, no máximo agora fazer umas graças com a falsa monogamia de muitos casais ou compartilhar memes engraçados, pois o feminismo, e especial o feminismo negro, me fez entender que minha solidão é algo estruturante da sociedade. Com as leituras sobre solidão da mulher negra eu consegui parar de me culpar, consegui trabalhar minha autoestima, deixar o estigma da “preta feia” para trás. Isso implica dizer que outras mulheres não sofram com a solidão? De forma alguma, até porque existem outros fatores como gordofobia, por exemplo, mulheres gordas também são preteridas, se for negra então, piorou! E leva tantas mulheres a perseguir padrões ideiais de beleza pra tentar ser aceita, se mutilando, fazendo dietas absurdas, enfim, tudo pra se sentir aceita e não ficar só. Imagina mulheres com deficiência! Ou então mulheres que são “padrão”, mas não aceitam mais caladas os sapos que temos que engolir muitas vezes dos homens pra sustentar uma relação. Se tu és uma dessas que não tolera e ainda não se identificou feminista, saiba que o feminismo já faz morada em ti!

E é justamente aí que o feminismo salva, ele te alerta que não é necessário mais tolerar, que tu não mereces essas relações, muito menos migalhas afetivas, que o mundo é diverso e tu não precisas ficar perseguindo padrão nenhum ou fazer coisas pra ser aceita e não ficar só, inclusive a solidão acaba sendo o melhor caminho para muitas escaparem de relações abusivas, por mais triste que seja afirmar isso. A solidão não é gostosa, temos que concordar, mas comparado a violência que muitas mulheres já sofreram e ainda sofrem, e que temos relatos aos montes, eu chego a me sentir grata por ter passado boa parte da minha vida só.

Enfim, o feminismo me salvou de muita violência, salvou minha autoestima, me libertou dos padrões, me ajudou a não trancar a faculdade, me ajuda a ser mãe e carregar o peso da maternidade, pois com a maternidade senti na pele o quanto o machismo pode ser ainda mais cruel com as mulheres, o feminismo me salva das culpas. Isso quer dizer que estou isenta de sentir culpa, ou de aceitar migalhas afetivas de vez em quando? Infelizmente não, pois fomos socializadas assim, numa sociedade machista, e é muito difícil se desfazer por completo de muitos anos de mundo encantado da Disney que é implantado em nossas mentes desde a infância, de toda carga diária da indústria cultural sobre padrões de beleza, pois as pessoas que te cercam, e muitas vezes até que te amam, implicitamente te cobram. Mas com o feminismo num momento tu paras e reflete, te livra do mal pensamento, te liberta, seja por si só ou por uma mana feminista que aparece do nada com uma mensagem super bacana que te dá aquele estalo na cabeça e tu pensas: Ei, já tô caindo na armadilha do patriarcado? Tu te levantas e vira o jogo, toma uma atitude, sai de um ciclo, acorda pra vida! 

Hoje eu sou mais feliz por enxergar essas verdades e sigo mais leve sozinha, cultivando diversos afetos, pois o amor é uma força incrível, te cura, o amor é revolucionário! E ele está em diversos formatos, deve ser valorizado e não desdenhado por conta das dores que infelizmente passamos, é lindo ver um casal de pretos se amando, por exemplo, ou sentir a cura que vem do amor de minha filha, e quando eu não era mãe me curava e ainda me alimento de amor com as amizades, com minhas plantas, meus estudos, minha militância, minhas conquistas, e até com os contatinhos, rs (afinal, sozinha sim, mas sem sexo também não dá, né? Huahauha! Mas até contatinhos passam por mais filtros agora e isso me ajuda a evitar problemas). E principalmente: o amor próprio! Colocando o amor por ti na frente, o resto tudinho vai fluir bem!

Com a maturidade e ajuda do feminismo a gente aprende que a felicidade não está num modelo pronto, por mais clichê que pareça dizer isso, a diferença é que a gente trabalha pra que esse clichê se torne real e deixemos de viver escravas dessa caixa de adestramento que vivemos. E o dia dos namorados que parece só uma data inocente e comercial faz parte deste adestramento, pois subliminarmente fortalece o ideal de amor romântico, da felicidade e sucesso só pra quem tem esse amor, o modelo monogâmico como o ideal e também o padrão heteronormativo. Hoje já observamos o mercado sinalizando em propagandas desta data os casais não hetero, e quando o faz de forma escancarada ainda encontra resistências! Mas isso é tão somente uma maneira do capital ampliar seu mercado consumidor, e daria com certeza um outro texto sobre apropriação de pautas sociais como estratégia de fortalecimento do sistema capitalista. Então encerro por aqui e digo:

Muito obrigada, feminismo, por me tornar uma mulher cada vez mais livre!

segunda-feira, 27 de abril de 2020

A monogamia sempre me venceu

Sou uma preta doida. Me apelidei assim porque desde a adolescência era chamada de doida, seja por minhas gaiatices, por ser impulsiva, atrevida, por não concordar com as caixinhas impostas pela sociedade, pelos meus fetiches, desejos ou por não tolerar injustiças e me fazer de doida mesmo! Doida é quem não está dentro do “normal”, não se sente contemplada com o padrão oferecido e decide transgredir, e apesar de não ter muita leitura quando era mais jovem sobre relacionamento não monogâmico, eu insistia em ser essa doida.

Mas num piscar de olhos a doida passa a ser puta, vagabunda, como são chamadas as mulheres que rompem com o patriarcado. A puta é considerada o mais baixo escalão de mulheres, sendo que elas ajudaram a sustentar por séculos o contrato monogâmico de forma diferenciada e privilegiada aos homens, enfim, o capitalismo racista patriarcal se beneficia de nosso trabalho, putas ou não, por isso tentam nos calar.

Esse tempo de isolamento social tem me feito revisitar muitas histórias, em especial os afetos, as relações. Me entendi e assumi como não monogâmica recentemente, mais precisamente em 2017 quando acabou meu casamento também por isso. Eu já me sentia assim, mas não conhecia nenhuma relação fora da monogamia de uma forma assumida, foi buscando leituras a respeito pra tentar entender isso que sempre senti, mas não sabia dar nome e se já tinha nome, que cheguei às reflexões sobre poliamor e não monogamia. Até então eu só tinha conhecido o swing e o “meio liberal” (acho uó esse nome “liberal”, mas tudo bem! rs Isso dá outro texto).

Nessas recordações, lembrei como em várias relações o fato deu ser assim, “doida”, me levaram a ser preterida. Sei que existem outros motivos, certamente, mas isso é outro assunto. Sou sempre considerada maravilhosa, inteligente, gostosa, divertida, que conversa bem, transa bem, uma boa companhia, mas que no final não vai casar e nem vai ser exclusiva, monogâmica. Pra alguns vira até festa, se encantam com a possibilidade da liberdade, se divertem, conversam muito empolgados a respeito, compreendem e concordam com meus posicionamentos, mas acabam optando pelo convencional, pela monogamia, e quando encontram alguém que vai lhes oferecer isso, eu sou descartada. Podem até sentir falta de mim, saudade, mas eu não sou o tipo de mulher pra se ter uma relação “séria” e fica melhor me ter como amiga. Fora os que já optaram pela monogamia, mas quebram seus contratos monogâmicos só pra matar saudades da “amiga” aqui.

É bem aí que paira um problema, a não monogamia para muitos não é pra ser levada a sério, nem é vista como relação sequer, eu mesmo não a enxergava, ou só um lance passageiro, uma onda, poder fazer o que quiser que a pessoa não vai se magoar, afinal é tudo livre, acha que ela vai compreender e assim acaba por não ter responsabilidade afetiva alguma com quem se relaciona dessa forma. Já parei pra pensar se de alguma maneira não tenho culpa (mulher sempre buscando culpa, né?) por não demarcar melhor isso com quem me envolvo, mas sempre deixei tudo muito bem transparecido, costumo ser verdadeira comigo e com quem me envolvo esperando de volta essa recíproca. Mas o que percebo hoje é a dificuldade em encontrar afetos que estejam afinados da mesma maneira que eu sobre a não monogamia, e decididos também a viver esse arranjo. Podem até achar bacana, compreendem bem, trocam ideia a respeito, mas não é isso que querem, a monogamia sempre me venceu porque no fim é isso que a maioria deles busca, conforto e exclusividade, sendo que muitas vezes eles nem oferecem isso de volta, aos homens sempre foi facultado ser infiel e sempre lhes doeu muito a alcunha de “corno”, ser corna não doi tanto quanto, pois assim fomos socializadas, a suportar caladas todas as adversidades em nome do único amor da sua vida, verdadeiro e eterno.

Eu sempre brinco que a única coisa que ganhei sendo monogâmica foi chifre, e fui monogâmica porque de fato não sentia desejo por outros homens, isso acontece na não monogamia também, mas ficava me perguntando se seria assim sempre, se só sentiria desejo por ele e mais ninguém. Nunca me vi apaixonada e transando com um único homem pelo resto da minha vida! Falei isso pra um amigo esses dias e ele me disse que acha que a maioria das mulheres pensam assim, só não têm coragem de assumir. E é isso mesmo, tem que ter muita coragem! Na sociedade machista que vivemos, muitas mulheres pagam com a vida por esse desejo, são mortas pelos parceiros por quebrar a regra, por querer viver outros afetos, ou se assumem logo de cara isso, como eu, pagam o preço da solidão, pois não somos relações sérias, somos sexo de ocasião, bem como carinho e atenção de ocasião.

É como se não tivesse nome o que eu quero. Eu não desejo ter uma relação assumida pra geral, de envolver família, morar junto então, nem pensar! Ter que expor minha filha a homens que eu jamais irei obrigá-la a tratar bem ou ter relação, enfim, mas quero ter afetos que eu possa conversar, dar uma volta, transar muito, saber como está, contar como estou, coisas gostosas de fazer a dois. Daí podem me dizer: ah, mas assim tu só queres a parte boa! Sim, mas qual é o crime de só querer coisas boas e descomplicar as coisas? Hehe! E quem disse que a não monogamia também não tem seus problemas? Tem vários, inclusive a desconstrução de conceitos e comportamentos da monogamia que ainda reproduzimos! Mas este é o nome que achei pro que eu quero, relações não monogâmicas é o caminho que mais condiz com o que busco e amadureci sobre relacionamentos.

Creio também que não seja impossível encontrar quem pense como eu e deseje ter relações não monogâmicas, é bom ter esperança! Importante ter certeza do que se quer para não se enganar em relações que não serão recíprocas nesse sentido. É muito difícil, eu sei, mas eu pago o preço de ser quem eu sou e não precisar fingir que sou algo só pela necessidade de ter alguém, eu já fiz isso e não é nada agradável! O preço de ficar sozinha hoje me sai muito mais em conta, quem sabe um dia o acaso me agracia e o padrão monogâmico não me vença mais, que eu seja amada, desejada e respeitada justamente por ser assim. Hoje me sinto mais feliz e segura em saber o que quero, lado maravilhoso de envelhecer! Sou muito agradecida por todas que se dedicam a refletir e escrever sobre não monogamia e poliamor, pois é isso que importa, buscar ser feliz entendendo que a felicidade não está nas caixas prontas, existe uma infinidade de possibilidades e o ser humano é muito diverso, ainda bem!

Que sigamos na luta pela nossa felicidade, desmontando padrões e enfrentando o status quo, é dureza, mas certamente é melhor que passar uma vida inteira se enganando e se frustrando. Muitas mulheres passaram uma vida sem saber o que é ser dona de seus corpos e seus desejos, não podemos mais permitir isso! Vamos seguir lutando para que todas as mulheres sejam livres e donas de seus destinos, permanecendo vivas por suas escolhas! O amor é livre, assim como nossos corpos e individualidades!
Viva o amor! Viva a liberdade!

Boa sorte e força na vida!

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Afetos e desafetos na quarentena


Este texto é um desabafo, então peço carinho na sua leitura. Foram meses, talvez anos me queixando sozinha por não ter um afeto decente, e mesmo passando a  compreender os motivos que me levam a estar assim, isso não deixava de ser triste. Aí mora o perigo, pois muitas vezes a carência nos leva a caminhos muito tortuosos... mulher negra, livre, não mono então, nem se fala! Parece território de ninguém! Minha carne é a mais barata, não merece valor, nem respeito. Já chorei muito por isso, quero tentar não mais.

Quando começou o isolamento social por conta da pandemia de covid-19, pensei: Agora sim! Vou amargar ainda mais essa minha condição de solidão! Porque sem quarentena já tava ruim de arrumar algum afeto, imagina agora? Mas essa foi só uma das várias angústias do confinamento, pensar em não poder ver minha filha sabe lá até quando e no caos social que se aproxima, genocídio da população pobre em nosso país, aumento do desemprego e pobreza, com certeza me consumiram muito mais!

Mas passado esse primeiro impacto de susto com o novo e tentando me adequar à rotina de poucos contatos físicos, me veio esse momento de mais serenidade, de deixar o barco correr e não sofrer por antecipação. Tentar aproveitar bem o que tenho e viver cada momento com qualidade, mesmo que seja dentro de casa o tempo inteiro. Hoje as redes sociais nos aproximam muito mais,  inclusive são elas agora responsáveis por grande parte de nosso contato. Comentava com minha comadre que se ela morasse aqui em Belém agora eu iria falar com ela da mesma maneira como estou agora falando com ela na Itália, que aprendemos de bem antes da quarentena a lidar com as distâncias e mantermos vivo nosso afeto. Então chega o momento de usufruir dessa vantagem e não somente demonizar as redes, pois como tudo na vida, se não soubermos dar um limite, acaba sendo nocivo.

Tempo para refletir e escrever, isso tem sido maravilhoso! Estudar, ler mais, estudar da forma que eu queria e não conseguia, e que me frustrava tanto por não conseguir. Nessas reflexões e estudos, passei a olhar mais pra dentro de mim e agora pra essa tristeza por falta de afetos, ressaltando que de afetos não falo só de família e amizade, essas estão comigo sempre, com pandemia ou sem pandemia, perto ou longe, bem como dariam um outro texto, mas sim dos afetos e relações que envolvem sexo. Sexo sempre nos foi colocado como pecado, algo sujo, proibido, errado ou também como algo muito íntimo, intenso, que só pode acontecer com quem “merece” ou que é necessário manter “fidelidade” com quem se faz sexo para haver respeito, enfim, essas lógicas moralizantes e monogâmicas que sempre vão dar em tretas. Inclusive a vida sexual é uma das problemáticas desse momento, por impulso meu de gostar demais de sexo, no começo pensei que isso seria um problema muito maior para quem está sem um relacionamento fixo como eu, mas quem tem seus namoros, casamentos, casos e acasos também estão encontrando seus problemas. Tomara que todos busquem e tenham chance de buscar os melhores caminhos, assim como eu estou aqui refletindo sobre os meus afetos.

E sobre eles eu fico aqui lembrando dos fracassos, do quanto já me fudi na vida e mesmo assim insisto em me inserir em relações que vou me fuder, pelo simples fato de querer me apaixonar, de sentir paixão, como se fosse uma adicção querer viver esse estado. Ou não, talvez também só vontade mesmo de ter relações bacanas,  recíprocas, amorosas, todas nós buscamos. Mas chega um momento que a gente já coleciona tantas feridas que é melhor repensar os caminhos desses vícios e carências. Nós mulheres estamos suscetíveis à violência nesta sociedade machista e somos submetidas a diversos abusos, precisamos sempre nos defender, infelizmente. As leituras sobre solidão da mulher negra passaram a fazer todo o sentido e elas também me auxiliam na busca de minorar e não me culpar por essas frustrações.

Mas como defesa, penso que preciso saber aproveitar o que tenho e o que recebo, sem precisar ter que me dar demais pra receber algo, ou por vezes nada. Quero levar tudo na mesma medida, se não tem afeto, não tem, se tem cuidado, atenção e me dá, eu dou. E ser for demais, bem, se for muito, já fico um pouco nervosa, porque o que é demais me abusa também!

E com o passar dos dias acredito que todos foram também repensando seus afetos, e alguns até surgiram, afetos que eram desafetos, afetos que estavam se construindo, afetos que eu julgava ter ficado no passado. Sinal de que pelo menos algo de bom eu deixei pra ser reconsiderada neste momento, e que ótimo! Como se a vida desse outra chance pra fazer as coisas melhores, curtir coisas boas, mesmo na distância, não se sabe até quando. E por mais que eu saiba que fui ferida muitas vezes, também tenho consciência da minha responsabilidade por ter chegado a certos momentos, sem tornar isso uma autoculpabilização, sem desconsiderar o contexto de opressão a que estou submetida. A necessidade do momento em não fazer a rancorosa, me abrir um pouco,  relaxar, aproveitar, mas sem perder a noção, ter limites.

Importante encontrar esse ponto de equilíbrio para se preservar e evitar as mágoas também, eu poderia ter evitado algumas, inclusive. Sei que não ficarei imune de escrotices eventuais, mas agora vou procurando ser mais ciente dos terrenos onde piso, ter certeza e não perder de vista o que eu quero e o que o outro quer, essa falta de diálogo e honestidade sobre os quereres nos leva a criar falsas expectativas. Tentar desconstruir um pouco dessa “Disney” de romance que constroem na cabeça das mulheres e que são responsáveis também por essas expectativas, de saber amar e curtir os afetos cada um no seu tempo e na sua medida, sem exageros, com tranquilidade. Esse tempo de caos pede serenidade para o enfrentamento, pra nossa saúde mental, afetiva, em saber aproveitar o que se apresenta, sem angústia de futuro, cada vez mais foco no presente, nesse dia, nesse agora, com a certeza de que nada é eterno, inclusive os afetos, que podem virar sim desafetos se o entendimento não for possível, isso é normal, não é o fim, é o que tem pro momento. Pode ser até que isso mude, ou não, mas não precisa mais consumir minha existência!

Que venha cada dia, único como deve ser, não preciso também perder a intensidade, pelo contrário, eu posso ressignificá-la a ponto de não me machucar e seguir bem. Minha intensidade está aqui, no que faço, no que penso, no que ajo. Não existe felicidade plena somente nesses afetos, existe também a felicidade de estar aqui em paz, sozinha em casa, podendo curtir demasiadamente e sem interrupções a mulher que sou hoje. Quero ser melhor pra mim, mais sagaz, inteligente, talentosa, gostosa, madura e vou me dedicar a isso seguindo minhas leituras feministas, meus estudos em ciência política, cuidando melhor da saúde, do meu corpo, da estética, enfim, de minha auto estima, que vejo como determinante nessas questões de humilhação por afetos. Há um mundo de ferramentas que posso lançar mão pra isso, e tenho consciência dos pequenos privilégios que tenho e que me permitem isso. Quero ser melhor não mais pros outros, deixar um pouco de me entregar loucamente à luta contra as opressões que não incomodam só a mim, mas o coletivo. Quero seguir pensando no coletivo, mas cuidando mais de mim, e ganhando carinho dos meus afetos, porque não? Se tem, eu vou querer! Mas me dando na mesma medida. E se não tem, não vou mais sofrer!
Só o que me entristece por agora é não saber quando isso tudo vai acabar e poder ficar com minha filha, mas vou distraindo a mente por aqui e por acolá pra não pensar nisso. Agradeço a quem me ajuda!

Essa vida
Ora um sopro
Por vezes longínqua
Num caminho nunca eterno
Sem volta
Sofrida
Mas que alegria te dá
Na beleza das coisas simples
Que a gente saiba te valorizar
Vida.

sábado, 14 de março de 2020

Marielle Vive!

Essa semana tava passando o comercial da mini série sobre Marielle e a mamãe comentou comigo: E quem será que mandou matar essa mulher, pq nunca descobrem? Respondi o que já desconfiava desde o começo: Foi uma família de milicianos, mãe! E quando estão no poder, tudo fica encoberto. Mamãe então me disse: Tá vendo o que acontece quando tu te mete com esse negócio de governo, de política, de ficar protestando? Eles tem raiva de gente assim e tu ficas te metendo nisso!

Não tive como confortar muito minha mãe, sei que estou longe de ser uma Marielle e disse isso em resposta, mas a morte dela me impactou justamente por isso, por ela ser uma de nós, negra, militante feminista, língua ferina, que não se cala diante da injustiça, que enfrenta, o tipo de gente que eles odeiam. Estava no Fórum Mundial Social em Salvador no dia de sua morte e de repente se encheram as ruas dessas mulheres, as milhares de Marielles em todo o Brasil que ousam lutar, mesmo que o preço a pagar seja a morte. E assim Marielle Franco vive, em nossa luta!

Te honraremos, não vamos deixar de perguntar quem fez isso contigo, mesmo que uma gama de ignorantes venham destilar seu ódio, questionando o que fizeste de tão relevante, te chamando de vagabunda, pois essa é a pecha que nos dão quando vêem uma mulher enfrentar o patriarcado, ele reage com uma horda de reprodutores fieis da desinformação, como cães de guarda. Eles ignoram completamente o fato de Marielle ter atuado com apoio jurídico e psicológico aos familiares de policiais assassinados, por exemplo, ou fingem ignorar, pois muitos deles são cínicos mesmo e sentem-se legitimados por esses canalhas que estão no poder! Mas não vamos desistir, seguiremos pelo que é justo, pelo que acreditamos, caminhando rumo ao sonho de um outro mundo possível!

#mariellevive #quemmandoumatarMarielle #paremdenosmatar #feminismonegro


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Comunicação feminista e uso das redes sociais


Tive a satisfação de conduzir essa oficina com e para valorosas companheiras feministas esta semana. Minha experiência com o cyberativismo começou em 2006, na ocasião de minha militância na Rede de Juventude e Meio Ambiente - REJUMA. Participei de cursos e atividades que nos preparava e nos alertava sobre a importância de nossa atuação no campo virtual. Confesso que nesse tempo eu não considerava ser essencial o debate, diante do deficitário acesso a internet aqui no Norte do Brasil, porém me interessei em aprender e me envolver mesmo assim, pois formação e conhecimento a gente não pode dispensar. Hoje, com o aumento do acesso e principalmente com o resultado da última eleição presidencial, podemos ver o quanto é importante dominarmos estes instrumentos e que precisamos nos apropriar, produzir conteúdo, enfim.
Minha experiência atual é alimentando este blog e fazendo trabalho voluntário de social media da Vivência Percussiva, administrando seu canal no YouTube, contas no Google, Instagram e página no Facebook, que me possibilita aprofundar os aprendizados, pois é na prática que vamos aprendendo muito dessas ferramentas. Além disto, estou participando do curso de comunicação feminista, curso à distância organizado pela SOF - SempreViva Organização Feminista, exclusivo às militantes da Marcha Mundial das Mulheres - MMM. 
Para esta oficina que conduzi, preparei um slide no PowerPoint e um texto para introduzir breve debate. Foi muito rico e interessante, pois acabamos debatendo sobre a importância das relações intergeracionais na militância feminista, em que uma geração precisa aprender com a outra, respeitar e beber da experiência das feministas que lutam há anos, assim como valorizar o conhecimento das mais jovens, principalmente neste campo da militância virtual. Segue o texto:


FEMINISMO NAS REDES SOCIAIS

O feminismo é um movimento filosófico, político e social que ganhou muita força nos últimos anos e a internet tem bastante influência nisso. Você sabia que estamos na quarta onda do movimento?

A primeira onda feminista estava concentrada principalmente nos Estados Unidos e Europa, no entanto no Brasil já haviam também mulheres se organizando com pautas como direito ao voto, vida pública e questionamentos sobre as imposições de tarefas domésticas. Tendo início no século XIX, a primeira onda feminista foi marcada pelo movimento de mulheres sufragistas, poucos sabem, mas nesse mesmo momento havia um grupo de mulheres negras abolicionistas, tendo destaque Sojourner Truth, que trouxe a discussão de raça para a as pautas feministas, fazendo a relação das duas opressões que as mulheres negras sofrem.

A segunda onda teve início na década de 1950 perdurando até nos anos 1990, e foi marcada pelo slogan “o pessoal é político” de Carol Hanisch, que enfatizava a necessidade de trazer a público as opressões que as mulheres sofriam em casa. Além dessa expressão, muitas outras pautas foram levantadas como: liberdade sexual, direitos reprodutivos e violência contra mulher. Simone de Beauvoir também foi um nome marcante para a segunda onda, um de seus livros chamado “O Segundo Sexo” de 1967 tinha como questionamento a diferenciação entre sexo e gênero. Nesse momento, as feministas da segunda onda buscavam também explicações sócio históricas sobre a condição das mulheres como subordinadas na sociedade, buscando respostas para questionamentos como: “por que as mulheres estão sempre atreladas a reprodução?”, o fato das mulheres estarem sempre no papel de oprimidas seria um motivo que levava a união universal de mulheres na busca pela mudança dessa condição imposta pela estrutura patriarcal. Assim, começou-se a ampliar as pautas do movimento feminista, unindo vários grupos de mulheres partindo do princípio que apesar das peculiaridades de cada grupo de mulheres ainda sim havia uma pauta principal em comum, a luta por igualdade entre homens e mulheres.

A terceira onda feminista com seu início nos anos 1990 teve como essência a ideia de que as mulheres são diversas, dessa forma as vertentes do feminismo foram mais evidenciadas, formando subgrupos, cada um com suas peculiaridades: Feminismo Negro, Feminismo Liberal, Feminismo Marxista, Feminismo Radical, Feminismo Intersecional, Transfeminismo, Lesbofeminismo e Feminismo Anarquista. Com as vertentes em destaque, a terceira onda traz outras pautas para o movimento feminista, além das questões de gênero traz questões como classe, raça, as diversidades de gênero, sexualidade, violência de gênero, inclusão das mulheres na política, entre outras. Dentro das pautas citadas acima, uma das mais discutidas é a desconstrução do binarismo de gênero (entender como gênero somente feminino e masculino), Beauvoir já havia começado a discussão sobre a construção e desconstrução do termo gênero na segunda onda e na terceira onda um outro nome foi destaque, Judith Butler, apontando que o discurso universal é excludente, excludente porque as opressões atingem as mulheres de modos diferentes, sendo necessário discutir gênero com recorte de classe e raça, levando em conta as especificidades das mulheres.

A partir dos anos 2000 o movimento feminista se distanciou das ruas, diferente das mulheres da primeira e segunda onda, uma vez que conquistas como voto, direito ao divórcio e a propriedade já haviam sido obtidas. Porém, com o advento das redes sociais e com o surgimento do Facebook em 2004, Twitter em 2006 e Instagram em 2010, algumas das redes sociais mais famosas da atualidade o movimento feminista passou a se organizar e expor suas pautas, usando essas mídias também como forma de mobilização.

Esse advento tornou o movimento feminista mais inclusivo, pois muitas mulheres aderiram as redes sociais para exporem suas inquietações em relação a sociedade patriarcal em que vivemos, sendo assim, ser “feminista” não requisitava participar de mobilizações ou de grupos de mulheres, ou mesmo participar de reuniões.

Desta forma, a quarta onda vem com o cyberativismo, que segundo Andreia Martins (2014) “consiste na utilização da internet por grupos politicamente motivados que buscam difundir informações e reivindicações sem qualquer elemento intermediário com o objetivo de buscar apoio, debater e trocar informação, organizar e mobilizar indivíduos para ações, dentro e fora da rede”.

Por meio do cyberativismo é possível que meninas e mulheres que desconhecem sobre os direitos da mulher possam conhecer, se aproximar e adquirir consciência sobre a importância do feminismo. Torna-se um instrumento que incentiva o pensamento crítico, promovendo posicionamentos que influenciam tanto a vida pessoal quanto em sociedade. Propiciou popularidade maior ao movimento feminista nos últimos quinze anos, e em especial, oportunizou maior visibilidade a grupos não hegemônicos como de militância ao feminismo negro e transfeminismo.

As redes sociais tem sido instrumento indispensável para propagação das manifestações feministas e através desse espaço virtual, os blogs feministas tem ganhado visibilidade nos últimos tempos, circulando diferentes pautas e ampliando o alcance das discussões, permitindo dessa forma que as mulheres possam ter maior contato com o feminismo. Abordando diferentes temáticas, tais como: manifestações contra todas as formas de violência, denúncia a sociedade patriarcal que vivemos e todas as formas de opressão e submissão, mulher e trabalho, abordagem relacionadas ao corpo e a sexualidade entre outros.

No Facebook, merece destaque o grupo fechado “Mulheres unidas contra Bolsonaro” criado em agosto de 2018 e que conta atualmente com mais de três milhões e setecentas mil mulheres. O grupo surgiu como forma de reivindicação contra o machismo, misoginia e todas as formas de preconceito. Partindo da premissa que o cenário atual brasileiro com a crescente onda do conservadorismo representa ameaças aos direitos conquistados através de luta e mobilização popular, visualizou-se a necessidade de reorganização e reafirmação enquanto sujeitos políticos e de direitos.

Youtubers feministas 

Aqui abordaremos alguns nomes de mulheres que estão assumindo papeis de grande visibilidade na web a partir de canais e blogs. As mulheres protagonistas desse movimento, sejam elas emissoras das informações ou leitoras tem oportunidade de crescimento político e social, tendo a partir do contato com os discursos um meio educativo para evidenciar, problematizar, desconstruir e resistir as expressões do machismo, opressões cotidianas e tentativas de inferiorização por questões de gênero, pertença identitária, esteriótipos. Criado e atualizado por Julia Tolezano, JoutJout Prazer é o nome do canal com cerca de mais de 2.008.000 de inscritos no youtube e aborda discussões referentes a relacionamento abusivo e várias abordagens sobre acontecimentos cotidianos. Gabi Oliveira em seu canal Gabi das Pretas tem por volta de 351.635 inscritas que acompanham Gabi e suas discussões sobre empoderamento e autoestima da mulher negra, colorismo, cotas raciais, apropriação cultural entre outros. Maíra Medeiros comanda o canal Nunca te pedi nada, com cerca de 1.225.0862 inscritos e a ideia que deu inicio a esse projeto foi a de que certos assuntos não eram abordados e precisam ser. Suas discussões são voltadas para empoderamento feminino e aceitação.

O uso das hashtags

Em 2007 as hashtags começaram a ser divulgadas no Twitter. O intuito dessa ferramenta é agrupar posts sobre diferentes assuntos por tópicos, a partir de palavras chaves antecipadas pelo símbolo “#”, o chamado feminismo virtual. Tem-se como exemplo as mobilizações virtuais criadas por ativistas em 2015, que foram as hashtags feministas tais como #meuamigosecreto, #belarecatadaedolar. Afirma-se aqui, que os dados abaixo informados foram coletados a partir de uma breve pesquisa na rede social Instagram, e contabiliza a quantidade de postagem com as hashtags. As pesquisadoras usaram como critérios citar nessa pesquisa, as que obtiveram maior visibilidade:

• #primeiroassedio com cerca de 2.809 publicações no instagram que deu espaço para relatos sobre a infância e os assédios sofridos;
• #agoraéquesãoelas com mais de 5 mil posts, tendo intuito de reivindicar por visibilidade nos veículos de informação da internet para falar da luta feminista para ter voz em todos os espaços e contra a opressão masculina. (essa hashtag foi também, titulo de um álbum musical em 2016 para representar a nova geração do feminino no sertanejo); 
• #meuamigosecreto com aproximadamente 8.933 posts, denuncia anonimamente as atitudes de pessoas do convívio social que tem posturas diferentes da imagem que “prega” para a sociedade;
• #mexeucomumamexeucomtodas com mais de 62 mil que teve inicio com a organização de atrizes e internautas no intuito de repudiar casos de assédio sexual após uma figurinista ter denunciado o assédio sofrido por um ator durante seu trabalho;
• e a mais recente e considerada como o maior movimento de mulheres no país, a hashtag #elenão que movimentou mais de 70 mil posts no intuito de repudiar um dos presidenciáveis nas eleições de 2018.

Essa nova característica da onda digital tem quebrado os estereótipos antes atribuídos ao movimento feminista, as mulheres intituladas feministas eram vistas como as que não se depilam e estão foram do padrão de feminilidade, quando na verdade o determinante para tal afirmação é a tentativa de controle social dos corpos femininos pelo capitalismo e pela cultura patriarcal.

Feminismo nas redes: a força está na colaboração!

Fonte:

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Homens são falos

Por
Judith Haick

Babados, pelo amor às nossas vidas, à nossa liberdade e à nossa saúde mental. Pica a gente não se apega. A gente senta. Porque os boys na sua grande maioria tem a mente de uma criança mimada e perversa. Bora parar de romantizar tamanha desgraça. Esse papo perverso que precisamos constituir família. De uma necessidade estúpida de ter alguém do nosso lado e esse papo fodido que esses encontros já estavam escritos e blá blá blá. Enquanto isso, vamos nos distraindo de nós mesmas. Porque sempre nos disseram que a gente precisa de uma companhia para Ser inteiras. Isso só tem ferrado a nossa mente e aprisionado os nossos corpos. Lógico como qualquer ser vivo, deseja uma companhia, um apoio, um carinho, uma foda. Mas não é isso que vai nos fazer felizes. Ninguém é capaz de nos trazer a felicidade. Somos nós que podemos nos proporcionar esses momentos. A sociedade educa homens para odiar, competir e violentar o ser feminino. Qualquer intenção de querer ajudá-los (educá-los) para serem diferente dos que são é uma maldita ilusão que também faz parte desse combo fodido que a estrutura insiste em nos encarcerar. Desta maneira estamos dando cabo dos nossos sonhos, dos nossos prazeres, do nosso tempo e da nossa liberdade. Mas assim tu estás senso genitalista com os homens. Tô nada. São os homens que foram conduzidos a se comportarem dessa maneira e que também optam em permanecer nesta postura. O homem e o falo são a mesma coisa. Não podemos exigir que uma pica sinta, pense e muito que ela dialogue conosco. Isso sim seria um verdadeiro absurdo. Claro que tem aqueles que saem do seu mundo imaginário. Mas isso é como encontrar uma agulha no palheiro. Alguém pode dizer que estou  exagerando nesse texto. Mas fiquemos atentas. A mudança só acontecerá quando os homens quiserem acordar do seu eterno engano. Quando quiserem abandonar seus tesões pequenos e tristes. Enquanto isso não acontece. As estatísticas contra os nossos corpos  crescem vertiginosamente. Seguiremos insaciáveis nos reencontrando. Parindo nossas reexistências possíveis e construindo uma constante rebelião.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Imunda

Preta
Imunda
Só presta a bunda
Mas nem bunda essa tem!
É só imunda

O que tocas é sujo
Mas é de uso
E abuso
A buceta que fede
Só pra meter serve
Pra beijar só fina flor
De cor cálida, rosada
De menina depilada

Preta
Teu tambor é imundo
Sujo pela história
Do racismo e preconceito
Que insiste em sua glória

Tua cor é que diz
O lugar que tu mereces
De indigna, suja, subalterna
Devassa, piranha
Depravada...
Não me serve!

Ainda bem, pois desse verme
Só enxergo a ignorância
Morra com seu nojo!
Sai daqui com teu achismo!
Pois a preta só quer do lado
Quem luta contra o machismo

Não aguento mais racismo
Nem tanta humilhação
As pretas nesse corre
Querem só libertação!

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Recitando minha dor - ENECS 2019

Tive a felicidade de receber a carta de aceite de dois artigos que submeti para apresentar em novembro de 2019 no XXXIII ENECS - Encontro Nacional de Estudantes de Ciências Sociais - João Pessoa-PB, no GT 15: Pessoas negras em diáspora: processos de vivências como (re)existências na contemporaneidade brasileira. 
O primeiro, com título "A desvalorização continuada da natureza feminina negra e a necessidade de enegrecer o feminismo" já postado aqui no blog, mas ainda não havia submetido para evento ou publicação, segue a versão completa submetida ao ENECS. 
O segundo estou como co-autora da talentosa jovem Agatha Sou, artista e estudante de Ciências Sociais da UEPA. Muito obrigada pela oportunidade, está sendo uma ótima experiência de escrita em dupla!!! Parabéns pra nós! Agora bora dar o jeito de chegar na Paraíba! haha!
Esse texto também submetemos para publicação na revista Feminist Press, num edital muito firme sobre solidão da mulher negra, buscando relatos e produção de negras brasileiras. Tomara que seja aprovado também!
Segue então essa versão mais enxuta que enviamos para a revista e o trabalho completo que vamos apresentar no ENECS. Boa leitura!



Agatha Souza da Costa (1)
Ana Carla Tavares Franco (2)


RESUMO

             O racismo, mitos e esteriótipos que caracterizam a natureza feminina negra, que tem suas raízes na mitologia anti-mulher oriunda do período escravagista, impactam a vida social e afetiva das mulheres negras. Na adolescência, etapa da vida de muitos conflitos com a estética, aceitação, auto-estima e afetividade, as jovens negras começam a experimentar o ônus da continuada desvalorização de seus corpos e identidades, se vendo muitas vezes como subalternizadas nos relacionamentos afetivos. Para não se ver sozinha, envolve-se em relações abusivas, violentas, restando como alternativa a solidão, abrir mão de sua vida sexual e afetiva em troca de não sofrer mais decepções, abusos ou até escapar da morte. Neste sentido, baseado em leituras do feminismo negro, o presente texto aborda a experiência com a poesia e o hip-hop da jovem negra amazônica periférica, Agatha Sou, em Belém-PA, como vetor de suas dores e angústias, assim como resistência e enfrentamento a esse processo de solidão e estigmatização de seu corpo e natureza, estimulando e acolhendo mulheres negras que passam por esses sofrimentos. 

Palavras-chave: solidão, racismo, poesia, hip-hop, feminismo negro. 


O VALOR DA MULHER NEGRA 

           A sociedade brasileira foi constituída culturalmente no período da colonização/escravatura sob a influência da sociedade europeia patriarcal, que desde sempre mantém as mulheres como submissas e subalternas. Essa relação de poder se acentua com as mulheres negras, que eram vistas como mercadorias, sendo mais cruel sua condição de expropriação. 

          O peso da desvalorização continuada das mulheres negras se arrasta até a atualidade e alcança ponto crítico no período da adolescência e juventude, em que desperta para a vida afetiva. As jovens negras, vistas como objetos sexuais, se vêem muitas vezes como segunda opção em relacionamentos, experimentando a exclusão, a solidão, sem consciência exata dos fatores que as empurram para esta condição. 

          Restando poucas opções, a mulher negra acaba envolvida em relacionamentos na condição de amante, objeto sexual, relacionamento subalterno, abusivo, violento, tendo como alternativa a solidão, abrir mão de sua vida sexual e afetiva em troca de não sofrer mais humilhações, abusos ou até escapar da morte. O mapa da violência no Brasil, elaborado pela Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais em 2015, aponta o aumento de 54% de assassinato de mulheres negras em 10 anos, provando que a violência contra mulher no Brasil tem cor, e ela é negra! 


RECITANDO MINHA DOR: POESIA E HIP HOP COMO RESISTÊNCIA 

“Orava pra Deus todo dia pedindo: 
Deus quero ser branca, Deus quero ser linda, Deus quero ser magra, 
quem sabe assim um dia eu seja amada, de alguém a namorada, 
andar pelas ruas de mãos dadas, tô cansada de ser sempre escondida e camuflada. 
Pra eles eu não sou nem mulher, tá ligado... 
eu só sou um banquete, só um boquete, só mais uma goza, só mais uma foda 
e eles dizem que não vão me chupar porque a minha buceta é mal cheirosa...” 
Trecho da poesia “Minha própria Deusa” parte 1. Agatha Sou 

            Na periferia o povo experimenta o abandono e o ápice da violência urbana, e é justamente onde vivem, em sua maioria, a população negra. A jovem negra Agatha Souza da Costa, que adota o codinome “Agatha Sou”, vive no bairro do Tapanã, periferia desta cidade amazônica, Belém do Pará, começou a experimentar em sua adolescência os impactos do racismo e da desvalorização da mulher negra no que tange sua estética e sua vida afetiva. 

            Agatha desde criança escreve suas dores em diários, poesias, crônicas e músicas, mas sempre as guardou por falta de incentivo, recebendo atenção apenas de sua mãe, que a inscrevia em cursos de redação e teatro. Somente em abril de 2019, aos 20 anos, através do projeto Slam Dandaras do Norte(3), se encorajou a apresentar seus escritos por ser um grupo de mulheres, e assim sentiu que poderia fazer o mesmo que elas. Shayra Mana Josy, autora do projeto, a incentivou a fazer mais poesias, o que demonstra a importância do apoio de mulheres negras, que expressam muito mais empatia por compreender as dificuldades e dores que uma jovem negra periférica enfrenta. 

            Na primeira edição do projeto em 2019, Agatha recebeu o prêmio de primeiro lugar e desde então não parou mais de recitar as poesias por diversos espaços culturais em Belém que lhe davam a oportunidade de declamar. O meio em que mais se inseriu foi nas batalhas de rap pelos bairros da cidade, que as convidavam pra recitar seu slam(4). 

            Por seu slam ser diferente, tanto pela performance no palco, quanto pelas letras que expressam muito sobre os relacionamentos abusivos vividos, usando palavras como “buceta” e “foda”, este escandaliza muitas pessoas e provoca diferentes reações. Assim, foi convidada a abrir alguns pockets shows(5) de artistas mulheres do rap da cidade, pôde recitar em escolas, eventos grandes, viajar para fora do estado pela primeira vez, porém, considera como mais importante o retorno das mulheres negras, gordas, trans, lgbtqia+ e periféricas, dizendo que suas poesias, ou slam, as representou e as empoderou. Vale destacar que o meio hip-hop paraense ainda é, em sua maioria, composto por homens, héteros, cis e periféricos que são excludentes em suas batalhas de rap, eventos hip-hop e outros, de modo geral é uma cena ainda muito machista, homofóbica, lesbofóbica e transfóbica. Por isso também Agatha sentiu-se instigada a inserir-se neste campo, buscando representar seu grupo, que é constantemente silenciado e invisibilizado. Através desse slam busca apresentar um olhar mais crítico para reflexão e mudança de comportamento dos homens, das mulheres, empoderá-las, combater a lgbtqia+ e fortalecer as jovens negras que passam pelo mesmo processo de dor, exclusão e solidão.

NOTAS 

1. Discente do curso de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Pará (UEPA). 

2. Bacharel em Administração pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Discente do curso de Ciências Sociais (UFPA) e militante da Marcha Mundial das Mulheres. 

3. “Projeto feito por mulheres e para mulheres que consiste no incentivo à produção e competição de poesia. Estreou em 2017 com foco principal em garantir o protagonismo feminino nos espaços culturais de Belém. A ideia inicial era realizar um encontro com as rappers do Norte, que são invisibilizadas no cenário nacional brasileiro.” (TELES, 2019 p. 26). 

4. “Slam, ou melhor dizendo poetry slam, é definido como: uma competição de poesia falada, um espaço livre de expressão poética, tem origem nos Estados Unidos no ano de 1986 em um bar situado na vizinhança de classe trabalhadora no Norte de Chicago.” (TELES, 2019 p. 26). 

5. pocket show são pequenos shows de rap feitos por artistas locais. 


REFERÊNCIAS 

Carneiro, Sueli. 2011. “Enegrecer o feminismo: A situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero”. Disponível em: https://www.geledes.org.br/enegrecer-o-feminismo-situacao-da-mulher-negra-na-america-latina-partir-de-uma-perspectiva-de-genero. 

Lemos, Amanda dos Santos. 2016. “Respeito e valorização à mulher negra”. Dignidade Re-Vista, [S.l.], v. 1, n. 1, p. 11. Disponível em: http://periodicos.puc-rio.br/index.php/dignidaderevista/article/view/185. 

Teles, Joseane Franco. 2019. “Protagonismo feminino no movimento hip hop de Belém do Pará: Reflexões de uma mana”. Belém, PA. Trabalho de Conclusão do Curso de Pedagogia. Universidade Federal do Pará.