segunda-feira, 27 de abril de 2026
Desejo de puta
sábado, 20 de dezembro de 2025
Treze horas
quinta-feira, 24 de abril de 2025
Amores
terça-feira, 7 de janeiro de 2025
Paixão por tamborim
sexta-feira, 25 de agosto de 2023
Minha Dissertação - Negras no Topo? Paridade de raça e gênero nos cargos de direção do Partido dos Trabalhadores
quinta-feira, 13 de abril de 2023
PCCR finalmente aprovado!
Depois de 13 anos, a reparação histórica aconteceu!
Entrei na SEDUC em 2009, no último concurso que teve pro meu cargo, técnica em gestão – administradora. Das primeiras atitudes que tive foi procurar saber qual era o sindicato da minha categoria, descobri que era o Sintepp – Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Estado do Pará, e me filiei. Também ingressei com meu diploma de especialização acreditando ganhar alguma vantagem salarial e foi indeferido porque não existia PCCR – Plano de Cargos, Carreira e Remuneração, mas que havia uma luta sendo travada para aprovação do mesmo.
Então, junto com os recentes concursados, começamos a nos articular pelo PCCR, à época minha colega técnica em gestão, Paula Campelo, peregrinava comigo junto ao assessor de gabinete da secretária de educação, Donizetti, que sempre garantia que estaríamos contemplados no PCCR. Era tudo muito novo e muita gente tinha receio de participar da luta por conta do estágio probatório, de ser prejudicado, e me deparei com a grande resistência ao Sintepp pela categoria de administrativos. Os mais antigos diziam que era um sindicato que só defendia professores e contavam de uma luta de mais de 10 anos atrás em que o Sintepp os deixou à mercê.
Em 2010 a história se repetiu, ficamos à mercê mesmo. O PCCR foi aprovado somente para o magistério e ficamos de fora, com a promessa de sermos inclusos no ano seguinte, foi tão frustrante que cheguei a me desfiliar do sindicato. Em 2013, “o gigante acordou” no Brasil e naquela efervescência de manifestações, gente na rua, a Seduc sede se levantou pedindo melhorias de condições de trabalho, nosso prédio estava em péssimas condições, insalubre, inseguro, além da defasagem salarial. Acabei liderando com diversos colegas a primeira greve dos administrativos e operacionais depois de décadas, dentre as pautas a reforma do prédio sede e unificação do PCCR, para que viesse nos contemplar, o PCCR Unificado. Pedi novamente minha filiação no Sintepp e me filiei ao PT, compondo assim a Oposição CUTista eu não tinha como me aliar à direção majoritária do sindicato mediante os anos de descaso com nossa categoria, era preciso mudar! Na chegada a essa oposição, recebi o apoio de Cris Leão, administrativa de escola, e Glaydson Canelas, técnico em educação - pedagogo, professor e hoje pai da minha filha, Mariana é filha da greve 2013!
Veio a pandemia e com ela grande desarticulação das lutas, somente em 2021, com um levante de um grupo de servidores da sede no dia do servidor público, cobrando reajuste salarial sem apoio de sindicato, pois não confiavam em nenhuma entidade sindical e não queriam a presença dos mesmos. A secretária de educação à época, Elieth Braga, disse que havia a pauta do PCCR, ela já tinha ciência do acordo judicial da greve de 2013, assim foi retomada a luta pelo nosso plano de carreira e pude fortalecer o discurso da importância que teve essa greve e a necessidade da entidade sindical nessa luta, já que o acordo foi feito entre o Estado e o Sintepp. Mais uma vez lançado o desafio de mobilizar a categoria com a presença do sindicato, e eu mesmo como oposição nunca me furtei a defender o Sintepp, pois ele é nossa ferramenta de luta, precisamos estar mais presentes na organização do mesmo.
Lutamos ainda pelos ganhos em nossa data base, que é em abril, pois o governo nos deu uma rasteira enviando o plano para aprovação em abril, mas com a data de início de vigor somente em 1º de julho de 2023. A teimosia e a certeza de que devemos lutar por nossos direitos nos fazem seguir, cientes de que muitas lutas ainda virão e que precisamos de uma categoria cada vez mais unida, consciente, politizada, e de uma entidade sindical fortalecida, que entenda e apoie nossos anseios, que não sejamos segundo plano, pois somos todos educação!
Viva a luta das trabalhadoras e trabalhadores da educação!
segunda-feira, 20 de março de 2023
Campanha pela vida de todas as mulheres: lutas, conquistas e desafios - Magis Brasil
Março é mês de luta das mulheres e abrindo o mês, no dia 1º, tive a oportunidade de representar a Marcha Mundial das Mulheres na live de abertura da Campanha pela vida de todas as mulheres: lutas, conquistas e desafios, do Programa Magis Brasil. Pude falar um pouco da história de luta das mulheres junto com minha companheira de Marcha, Marcele de Paula, e sobre as pautas do movimento feminista, destacando o feminismo negro e a importância da articulação política de mulheres para o combate à violência e avanços em políticas públicas.
O momento contou com a participação de Clara Mabeli e foi mediado por Emiliana Pacheco, ambas do Programa Magis. Agradeço muito pela acolhida, pelas trocas e desejo muito sucesso na campanha!
O bate-papo ficou registrado no Youtube e também disponível como podcast no Spotify.
terça-feira, 14 de março de 2023
Mudanças
Há tempos venho adiando isso, reler meus desabafos publicados aqui. Pelo menos já consegui, meus diários de adolescente acho que jamais conseguirei reler, talvez nem queira por não ser mais o que era. Só aqui pelo blog já sinto o impacto! Como mudei do último desabafo pra cá, num intervalo de um ano e meio, de fato a solidão me amadureceu muito, não perdi tempo, energia e emocional com ninguém além da minha filha e cada vez mais me dedico a mim e à minha felicidade, à minha saúde, meu bem estar, minha casa, meu axé. Cuidar de si é libertador!
Hoje não preciso me entristecer mais pela falta de sexo, na verdade só faltava sexo porque eu conduzia dessa forma, condicionando o sexo à uma forma de suprir carência emocional. Não precisa ser assim. Aliás, é bem melhor quando não é assim, aproveito e desfruto muito mais. Mas também há outros segredos que não há como revelar aqui... A vida de mulher adulta, solteira, não monogâmica e mãe tem me ensinado muito a lidar com a solidão e as carências, a gente aprende que as relações que nos deixam felizes estão para além das relações românticas, sexuais, fico feliz que a maturidade venha me trazendo isso.
Mas o que queria falar mesmo é da velocidade das mudanças, talvez seja por me permitir a viver muitas coisas, novas experiências, um conjunto de vivências que vão nos moldando, mostrando outras visões, realidades, eu não consigo parar. Eu sei que um dia vou precisar reduzir o ritmo, é um processo natural, mas enquanto eu tiver saúde e disposição, não quero parar! E invisto em cuidar da saúde pra esticar esse tempo.
Não parar não está relacionado necessariamente ao trabalho. Quando não estamos aposentados, estamos na "ativa", como se estar em atividade é somente por via do trabalho formal. Existe toda uma vida e diversas atividades para além do trabalho, que infelizmente muitas pessoas não valorizam, não buscam, não se permitem ou também não tem oportunidade. Num universo de desigualdade social que vivemos, é negado a muita gente o direito a fazer qualquer coisa pra além de doar sua mais-valia.
Então preciso agradecer! Agradecer pelas oportunidades, pelos caminhos abertos, pela saúde, plenitude e felicidade! Por hoje me sentir verdadeiramente linda e gostosa, porque de fato sou e não permitirei mais que o racismo e os esteriótipos neocoloniais de beleza me façam pensar o contrário. Sou feliz por todas as mudanças e movimentos. Exu é movimento! Laroyê, Exu!
quarta-feira, 31 de agosto de 2022
Saber escrever?
Eu queria saber escrever... Pensativa, segue no ônibus lembrando de textos e poesias que não foi capaz de escrever. Puxa o celular, pesquisa as leituras lindas que gostaria de ter o talento pra ter escrito. Sim, talento. Ou vocação. Enfim, não nasce para todos e não foi para ela. Pesquisa mais alguns, passa da parada que ia descer. Segue o caminho, cabeça fervendo, precisa parar e escrever, tá na brisa do beck que fumou ao acordar. Pega o celular, olha ao redor, pode ser assaltada, guarda na bolsa, aperta contra o peito e anda. Fala com Exu, com seu Zé, segue na fé, chega viva. Está viva! A vida segue morna, mas viva! Precisa extravasar igual a Anitta travada na comemoração do VMA que ganhou. Mas ela tem talento, é rica, deve extravasar. Sem talento pra escrever, nem pra ganhar um VMA, segue viva para o trabalho, mais um dia de anonimato e sem talento, de desalento e descrédito, ela ri, ri da própria decadência e do gosto de poder agora extravasar sem ser filmada, uma preta qualquer, num trabalho qualquer, uma foda qualquer... Escrever sem nexo será um talento?
domingo, 19 de junho de 2022
Meu TCC - Mulheres Negras em Movimento. Reflexões sobre Feminismo Negro, Movimentos Sociais Negros e a Marcha das Mulheres Negras
quinta-feira, 28 de outubro de 2021
A solidão é minha única via
Tem momentos que me vejo triste, tão triste... é normal, pois que na vida não é possível a felicidade constante. Assim como tenho um montão de motivos para estar feliz, pra sorrir, também outros inúmeros motivos para entristecer. Em algum momento a tristeza vai chegar, é preciso estar preparada pra esse momento, pra que não venha tomar um espaço pra além da sanidade.
Me entristeço com a solidão,
queria um colo e um bom sexo agora, não posso ter. Sinto um tesão enorme depois
que estudo, após horas de leituras e escritas, um bom sexo cai bem... mas não
tenho ninguém, me sobra a tristeza. Não sei se é mais triste isso ou ter alguém
e mesmo assim não ter sexo, acho que ambos são tristes, tristezas diferentes.
A solidão é minha única via,
caminho certo para evitar aborrecimentos, violência, desdém, abusos. A solidão como arma política. Tem um fanzine sobre isso quando a gente faz a busca, de Marcela Lagarde. O medo da solidão é impeditivo na construção de autonomia, porque desde pequenas nos formam um sentimento de orfandade e dependência, colocando a solidão como algo negativo. Mas foi a solidão que me ensinou a me amar e a dizer não ao que não preciso, ao que não quero e não é
bom para mim, a não mendigar mais afetos. Talvez não alcance tanto a
autoestima, pois por vezes entendo a solidão como preterimento, por não ser uma
pessoa bonita e interessante. Interessante sei que sou, mas bonita nem tanto,
estou fora dos padrões vigentes, acho que o estigma de “preta feia” nunca
deixou de me acompanhar desde a adolescência, aprendi a conviver com ele e sei que deve ser um trauma a vencer.
Acho que não sei mais flertar, na
verdade nunca soube, já levei tantos foras que tenho preguiça de arriscar mais
um, e a solidão me acompanha assim, pois se não me lanço é que nada cai na
minha rede. Já fui muito lanceira, me diverti muito, mas tbm me lasquei igual. Estou
inerte, paralisada. A solidão da mulher negra se faz real para mim. Negra e
mãe, além de tudo feminista, dona de si, eles não querem bancar.
E elas? Pq não falo delas? Pq tbm
não aparecem. Quem sabe um dia eu viva algo bem inusitado e diferente, que me
faça rever tudo isso, não sei, melhor não contar com nada... cansei de viver de
sonhos e ilusões, de contos de fadas, agora eu sigo a realidade e minha
realidade é essa, solidão de uma mãe preta cansada de sofrimentos e carente de
cuidados, de afeto, de carinho e pq não, de sexo. Quem poderia cuidar de mim
pelo menos um pouquinho? Não sei! Eu só sei é que não posso contar com isso e preciso
seguir me cuidando, é o que me resta. Hoje entendo que não posso mais me
escravizar em relações ruins pra suprir essa carência, e nem sucumbir aos
contos encantados da metade da laranja e complementação, não se trata disso. É só
o bom desejo de contato e trocas de energias que não são permitidos a mim, a
nós, o afeto nos é negado e as relações saudáveis são uma loteria, assim se dá
minha sentença nesse viver.
E tem sentenças pesadas para mulheres trans, gordas, com deficiência, idosas, e a cor negra intensifica a opressão. Lutar também é minha única via, para que essa realidade se transforme, que não sejamos mais inferiorizadas, mal tratadas, desrespeitadas, desprezadas. Somos humanas, sociáveis, cheias de energia, também merecemos amor e afeto sadios, satisfatórios, em diversas composições, acordos, cores e sabores!
terça-feira, 28 de setembro de 2021
Os impactos da política fiscal nas políticas sociais para o desenvolvimento e desigualdade social no Brasil
Esse texto foi apresentado na avaliação final da disciplina Teoria e Prática em Políticas Públicas, do Mestrado em Estado, Governo e Políticas Públicas que estou cursando na FLACSO - Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais em parceira com a Fundação Perseu Abramo. Gostei bastante do resultado, pois explica os rumos do desenvolvimento do nosso país pelo prisma das políticas sociais e a influência da política fiscal, fazendo compreender porque chegamos ao estado das coisas atuais.
e desigualdade social no Brasil
Ana Carla Tavares Franco
Quando se pensa em perspectiva ampliada o desenvolvimento de um país se abrange para além do campo econômico, incluindo elementos da política, do social e ambiental. O Estado é o organismo que opera esse processo e a sustentação do desenvolvimento nacional se ancora nas políticas sociais, que possuem papel estratégico para enfrentar situações conjunturais adversas e criar bases para construção de uma nação econômica e socialmente mais forte e democrática, por meio da ampliação da justiça social, favorecimento do crescimento e da distribuição de renda.
A política social, como parte das ações do Estado para o desenvolvimento do país, é uma das fontes de influência sobre o processo de desenvolvimento e elemento irradiador de uma série de relações e dependências devido a sua diversidade. De acordo com Jorge Castro (2012):
A concepção sobre a política social sustenta-se no fato de que ela, em seu estágio mais avançado, se faz presente mediante complexos esquemas de distribuição de renda, produção e provisão de bens e serviços, distribuição de ativos patrimoniais, aplicando significativas parcelas do Produto Interno Bruto (PIB) além de regular alguns setores do mercado e empregar expressiva parcela da força de trabalho do país. Em seu desenrolar, essas políticas afetam a situação social dos indivíduos, famílias e grupos sociais, induzindo melhorias na qualidade de vida da população e, ao mesmo tempo, dadas suas dimensões, alteram a economia e a autonomia de um país, o meio ambiente e o próprio patamar de democracia alcançado, tornando-se, assim, elemento fundamental para o processo de desenvolvimento nacional. (p.1012)
Ainda no entendimento de Jorge Castro (2012) a política social trata-se de “um conjunto de programas e ações do Estado que se concretizam na garantia da oferta de bens e serviços, nas transferências de renda e regulação de elementos do mercado.” (p.1014), buscando realizar dois objetivos conjuntos que são a proteção social e a promoção social.
A proteção social dos cidadãos está ligada à seguridade social, que se baseia na ideia de forçar a solidariedade aos indivíduos, famílias e grupos em determinadas situações de dependência ou vulnerabilidade, como uma pessoa acidentada e incapacitada de trabalhar, vulnerabilidade de crianças e idosos, situações que impendem o ganho do próprio sustento em decorrência de fatores externos alheios à vontade do indivíduo. A promoção social se compreende como resultante da geração de oportunidades, igualdades e resultados para os indivíduos ou grupos sociais. A expansão de bens e serviços sociais são a materialização da geração de igualdades, principalmente com escolarização e acesso à saúde, em conjunto com políticas públicas como de inclusão produtiva de diversos tipos, nas cidades e no meio rural. Os melhores resultados serão alcançados ao conseguir atingir as populações mais pobres com bens e serviços de boa qualidade.
Deste modo, o formato e amplitude das políticas sociais de proteção e promoção social, dada as condições históricas estruturais, situação e contexto presente de cada país, seus resultados vão influenciar diretamente na direção tomada pela política social, que podem resultar na ampliação da justiça social e coesão social. Quando o gasto autônomo com políticas sociais se torna relevante para o ritmo de expansão da atividade econômica, estabelece-se uma determinada conexão entre essas políticas e os fatores econômicos, pois o gasto público com políticas que permitem a ampliação do sistema de garantia de renda, gerando determinado tipo de distribuição de renda, altera o padrão de consumo de indivíduos, famílias e grupos, com capacidade de criar um amplo mercado interno de consumo.
Em relação às questões ambientais, Jorge Castro (2012) afirma que:
a política social pode e deve cumprir papel relevante quando da elaboração e implementação de suas políticas, buscando a recuperação e preservação do meio ambiente como critério para desenho de próprias ações. Em contrapartida, os problemas ambientais, quando de suas ocorrências, atinge fortemente as populações mais pobres, forçando ainda mais a necessidade de ampliação das políticas socais. (p.1017)
Manter esse conjunto de políticas exige a mobilização de recursos fiscais compatíveis e no Brasil vem se alterando significativamente o patamar dos gastos sociais desde o final dos anos 1980, e para poder fazer frente às despesas geradas pelos serviços e benefícios ofertados a responsabilidade pública no seu financiamento foi expandida de forma significativa a partir da Constituição Federal de 1988, com novo arranjo das relações federativas descentralizando as responsabilidades e os recursos, reduzindo à dependência em relação à União.
Os recursos para viabilizar as políticas sociais estatais dependem de tributos e deste modo ficam à mercê do sistema tributário e à política fiscal adotada. Em nosso país, o sistema tributário está configurado de modo a limitar a capacidade das políticas sociais em alterar a realidade social, pois:
mesmo que as políticas sociais protejam os cidadãos mais vulneráveis, seus efeitos redistributivos serão parcialmente comprometidos pelo fato de que os beneficiários das políticas sociais são, em certa medida, também seus principais financiadores. Visto sob esse prisma, a dicotomia entre “contribuintes e não contribuintes [sic]” perde muito de seu significado, pois todos são contribuintes e mesmo os mais pobres sustentam a arrecadação tributarias devido à tributação indireta. (CASTRO, 2012, p.1027)
Somado a isso, a estratégia de estabilização monetária pós-1994 carrega um novo padrão de financiamento dos gastos sociais federais de 1995 a 2002, gestão psdebista de Fernando Henrique Cardoso. O relativo controle da inflação conduziu o governo brasileiro a um crescente processo de endividamento, quando se reduziram as fontes externas de financiamento e o governo federal foi obrigado a cortar gastos reais e incrementar as receitas próprias para garantir a estabilização monetária, estagnando o ritmo de crescimento do Gasto Social Federal (GSF), que é divido por áreas de atuação, das quais são: Educação, Cultura, Saúde, Alimentação e Nutrição, Saneamento e Meio Ambiente, Previdência Social, Assistência Social, Emprego e Defesa do Trabalhador, Organização Agrária, Habitação e Urbanismo e Benefícios a Servidores Públicos.
Os gastos sociais reduzem a desigualdade social e a política fiscal é um instrumento que se utiliza para amenizar as desigualdades de mercado. A Europa é muito menos desigual que a América Latina não somente pelo mercado de trabalho diferenciado, mas principalmente pelo papel do Estado. Fazendo uma comparação do índice de Gini (que aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos) entre os países latino-americanos e europeus, presente no estudo da CEPAL (2015), percebe-se que quanto maior o gasto público se altera a desigualdade de renda, evidenciando o impacto redistributivo da política fiscal.
A gestão petista do governo federal a partir de 2003, com a presidência de Luis Inácio Lula da Silva tem como característica o aumento dos gastos sociais como mecanismo de combate à desigualdade social, com diversos programas em todas as áreas de atuação do Gasto Social Federal, que segundo Eduardo Fagnani (2011), foi um governo que viveu sob a tensão entre os paradigmas do Estado Mínimo versus Estado de Bem-Estar Social, tendo como primeira etapa (2003-2005) a Mudança ou Continuidade, marcada pela manutenção da ortodoxia econômica que teve consequências nos rumos tensionados das políticas sociais, e a segunda etapa (2006-2010) de Ensaios Desenvolvimentistas, marcada pelo arrefecimentos dessas tensões.
A crise financeira de 2008, que impactou o mundo inteiro e teve origem na crise da bolha imobiliária dos Estados Unidos, que levou a falência de bancos e queda das bolsas mundiais, também foi sentida no Brasil e a gestão de Dilma Roussef (2011-2016) adotou uma política fiscal de enfrentamento da crise subsequente a esse acontecido que gerou uma desaceleração do crescimento em seu primeiro mandato. Após um momento de rápida recuperação da crise, a mudança no arranjo da política econômica foi de reversão da política fiscal expansionista dos anos anteriores diante do cenário de crise da Zona do Euro no início de 2012, combinada com a desaceleração da economia chinesa e lenta recuperação dos EUA. As condições internacionais mudaram drasticamente e tornaram-se cada vez mais adversas, e, assim, a economia brasileira passou da desaceleração para uma recessão no segundo mandato de Dilma, tornando-se cada vez mais difícil a manutenção de uma política econômica que aumentasse ou pelo menos mantivesse os gastos sociais, gerando descontrole nas contas públicas de despesas e receitas.
A situação abriu margem para os interesses de classe dos capitalistas, que ansiosos por adotarem uma agenda de economia política de austeridade, atuaram em torno do golpe em 2016 que depôs a presidenta Dilma Rousseff. Com o argumento de que para arrumar a “bagunça” e a crise política, econômica e social, chamada de “conjunto da obra” pelo qual justificaram a derrubada do governo, seria necessário aplicar uma política econômica rigorosa, de disciplina, sacrifícios, com políticas fiscais restritivas de redução de gastos e aumento de impostos, que por meio desse ajuste fiscal ajudariam a economia e viria a surtir efeito expansionista, corroborando com o crescimento econômico.
A defesa da austeridade fiscal sustenta que, diante de uma desaceleração econômica e de um aumento da dívida pública, o governo deve realizar um ajuste fiscal, preferencialmente com corte de gastos públicos em detrimento de aumento de impostos. Esse ajuste teria efeitos positivos sobre o crescimento econômico ao melhorar a confiança dos agentes na economia. Ou seja, ao mostrar “responsabilidade” em relação às contas públicas, o governo ganha credibilidade junto aos agentes econômicos e, diante da melhora nas expectativas, a economia passa por uma recuperação decorrente do aumento do investimento dos empresários, do consumo das famílias e da atração de capitais externos. A austeridade teria, portanto, a capacidade de reequilibrar a economia, reduzir a dívida pública e retomar o crescimento econômico. (BRASIL, 2018, p.17)
São diversos argumentos utilizados para convencimento da população sobre a necessidade de implementação de uma economia política de austeridade fiscal, que se concentram no mito da fada da confiança, em que os agentes privados resgatariam a confiança e passariam a investir no país diante dessa agenda de “disciplina”, e na metáfora do orçamento doméstico, em que é feita uma falsa simetria do orçamento de uma família com o orçamento do governo, lançando mão do argumento moral de que os anos de excesso devem ser remediados com abstinência e sacrifícios, tendo a austeridade como remédio.
A comparação do orçamento do governo com o orçamento familiar é equivocada, pois o governo tem a capacidade de definir o seu orçamento e fazer escolhas para tal, como tributar pessoas ricas ou importações de bens de luxo para não fechar hospitais, enquanto a família não tem poder de definir o quanto ganha, o orçamento público decorre de uma decisão coletiva sobre quem paga e quem recebe, quanto deve pagar e quanto deve receber. Famílias não emitem títulos de dívida em sua própria moeda e não definem a taxa de juros das dívidas que pagam. Já o governo faz tudo isso.
Os capitalistas se beneficiam das políticas de austeridade à custa de direitos sociais da população, gerando recessão e desemprego, corte de gastos, redução das obrigações sociais, abre espaço para futuros cortes de impostos das empresas e elites econômicas, redução da quantidade e qualidade de serviços públicos, aumentando a demanda de parte da população por serviços privados, que aumenta os espaços de acumulação de lucro privado.
A austeridade é também um dos três pilares centrais do neoliberalismo, juntamente com a liberalização dos mercados, em especial o de trabalho e o financeiro, e as privatizações (Anstead, 2017). A racionalidade dessa política é, portanto, a defesa de interesses específicos e é ainda um veículo para corroer a democracia e fortalecer o poder corporativo no sistema político. Essa perspectiva traz luz para a realidade brasileira, na qual as políticas de austeridade acontecem em um período de extrema instabilidade política e de aumento das tensões de classes. Nesse contexto, a austeridade contrapõe as vítimas dos cortes – principalmente a parcela mais pobre da população – aos perpetradores dessas políticas –as elites econômicas e um governo subserviente. No Brasil, a austeridade impõe o que foi a ambição de décadas de segmentos políticos mais conservadores: revogar o contrato social da Constituição Federal de 1988 e aprofundar as reformas neoliberais. (BRASIL, 2018, p.21)
O governo de Michel Temer trouxe logo em seu primeiro mês em 2016 a proposta de um suposto “Novo Regime Fiscal”, aprovado em dezembro através da Emenda Constitucional 95/2016 (EC 95), instituindo uma regra para as despesas primárias do Governo Federal com duração de 20 anos e possibilidade de revisão – restrita ao índice de correção – apenas após 10 anos. Em resumo, esse novo regime institui uma permanente austeridade e a política fiscal adotada tem papéis múltiplos, em que se destacam as dimensões redistributiva, estabilizadora e de provisão de bens públicos ou semi-públicos.
A eleição de Jair Messias Bolsonaro veio a ser a garantia de manutenção desse regime de austeridade, que atende ao grande capital especulativo que investe e o mantem até hoje na presidência, mesmo diante do seu índice crescente de rejeição e dos diversos pedidos de impeachment engavetados no congresso. Sua permanência no poder atende aos interesses da classe dominante em detrimento da maioria da população, composta pela massa de trabalhadores e trabalhadoras que em boa parte assiste incólume a crise pela qual paga o preço e em outra parte ainda é convencida a apoiá-lo através de uma grande máquina de produção de desinformação e de comunicação através das redes. A próxima eleição se dará em torno daquele que conseguir conciliar esses interesses, pois o grande capital nunca jogou pra perder, quem perde somos nós, o povo que os sustenta.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Brasil Debate; Fundação Friedrich Ebert (2018) Austeridade e Retrocesso: impactos sociais da política fiscal no Brasil. São Paulo. Acesso em: 09/01/2019. Disponível em: https://goo.gl/AqAfR7
Cardoso Júnior, J. C., & Castro, J. A. (2016). Economia política das finanças sociais brasileiras no período 1995-2002. Economia E Sociedade, 15(1), 145-174. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/ecos/article/view/8642924
CASTRO, J. A. (2012). Política social e desenvolvimento no Brasil In: Economia e Sociedade, v. 21, n. 4, dez. 2012 [especial]. Disponível em: https://goo.gl/NySV56
DWECK, Ester., TEIXEIRA, Rodrigo A. A política fiscal do governo Dilma e a crise econômica. Texto para discussão. IE/UNICAMP n.303. Disponível em: https://www.eco.unicamp.br/images/arquivos/artigos/3532/TD303.pdf
FAGNANI, Eduardo. (2011). A política social do Governo Lula (2003-2010): perspectiva histórica. Texto para discussão. IE/UNICAMP n.192. Disponível em: https://www.eco.unicamp.br/images/arquivos/artigos/3105/TD192.pdf
segunda-feira, 9 de agosto de 2021
Sim, sou mal-amada!
Existe um conhecido jargão que
lança às mulheres quando estão irritadas ou mal-humoradas a alcunha de mulher mal-amada,
relacionando a falta de sexo ao estado de stress que a mesma se encontra, e deixa
implícita a mensagem de que a mulher para ficar bem e calma necessita de um
falo que lhe dê prazer, e somente o homem seria capaz de cumprir esse papel. O
famoso “isso é falta de homem” complementa a ofensa.
Pois bem, o fato é que grande
parcela das mulheres são mal-amadas na real. Não somente pela falta de sexo,
que faz parte da rotina de diversas relações, ou sexo de péssima qualidade, mas
pelo tratamento que recebemos todos os dias de nossos companheiros homens. Faço parte do exército
de mulheres mal-amadas, pois hoje sendo solteira e sem intenção alguma de
assumir relacionamento, sou imediatamente direcionada ao papel de puta, objeto
de uso e desuso, e deste modo sou assim tratada, sem respeito ou cuidado, já que não sou digna, e assim também opera o
patriarcado sobre mim. É difícil encontrar sexo de qualidade quando o tesão
desperta não somente pelo físico, pela química, mas também pelo caráter e
inteligência.
E por falar em relacionamento,
qual a mulher que convive com um homem que não teve que se irritar ou aturar a louça suja na
pia, a cueca enrolada no chão, a privada suja, a “inaptidão” e “lentidão” para
executar certas tarefas domésticas, fazendo com que a mulher assuma logo a
tarefa de vez pra não se irritar ainda mais, que tem que lembrar o companheiro
de todas as obrigações que são dele, do cuidado com as crias, do que elas
necessitam, a ponto até de marcar a consulta do homem adulto junto ao médico, causando uma
sobrecarga mental que é invisibilizada. Certamente que são pouquíssimas as que
não passaram ou ainda passam por essas e outras situações! Pare e ouça com
atenção as queixas de uma mulher casada e verá que a lista de situações
irritantes e exaustivas é muito maior!
Somos subjugadas, controladas, humilhadas, violentadas, estupradas e até assassinadas por nossos companheiros, as
estatísticas não me deixam mentir! As mulheres não são somente mal-amadas, são
odiadas mesmo! A mulher negra ainda ganha mais uma camada de ódio, desprezo e
humilhação, dado o peso do racismo sobre nossa existência. Foram muitos anos
que nossos corpos foram animalizados, herança da escravidão, que manteve a
comercialização de nossos corpos e com papeis determinados para exploração,
seja sexual ou do trabalho doméstico.
Da próxima vez que disser (eu
espero que não diga) ou ouvir que uma mulher é mal-amada, pense nisso que
acabou de ler. Se tu amas mulheres, segue dando amor e muito mais amor, lutando para que sejamos
bem-amadas, melhorando a cada dia, se observando e tomando atitudes que
demonstrem amor. Não queremos somente palavras lindas, promessas, presentes ou
juras de amor, queremos atitude! ATITUDE! Queremos ver a prática do dia a dia
provando que existe amor e cuidado, diálogo e autocrítica, companheirismo e respeito.
Se tu, mulher, é bem-amada, que maravilha! É justamente isso que queremos pra todas nós! Seguiremos na luta por nossa felicidade, por nossas vidas, por nossas (re)existências! Que as mulheres sejam felizes e bem-amadas não só por seus parceiros, mas por todas as relações, que sejamos respeitadas e valorizadas, felizes sozinhas ou acompanhadas. Felizes!
domingo, 21 de fevereiro de 2021
Maternidade: amor, solidão, imposição
Quando a mulher se entende com um útero, possuidora de um órgão que pode gerar outro ser dentro de si, sente em algum momento o dilema de querer ou não experimentar a sensação de gerar um filho. Daí é viver a dicotomia do cuidado e medo de engravidar cedo demais e mais tarde a angustiante contagem regressiva de um “relógio biológico”, como se tivéssemos um prazo de validade prestes à expirar. Esse dilema vem acompanhado de muitas questões e influências, principalmente ligadas à nossa socialização e modelo de sociedade que estamos inseridas.
Para a maioria de nós, a maternidade é romantizada, é pintada de rosa todos os dias desde nossas brincadeiras de cuidar de bonecas até os filmes, animações, novelas e séries que transmitem a imagem do final feliz da mulher sendo mãe e formando uma família com seu príncipe encantado. A mulher que ousa apontar as desvantagens e crises reais do ser mãe e desse ideal perfeito de família tradicional é castigada por subverter essa ordem, recebe julgamentos depreciativos como amargurada, ressentida, mal-amada, frustrada, louca, doente. É preciso muita coragem pra contrapor a ordem vigente!
“Ser mãe é padecer no paraíso” escutamos desde cedo. O paraíso, eu como mãe posso afirmar, é o amor de uma criança, sentir o amor de uma criança é algo sem igual, sentir no olhar, no sorriso, nos gestos mais verdadeiros e sinceros que aquele serzinho tão pequeno e tão incrível, te ama de forma honesta e pura. Mas ouso dizer que esse amor, o de mãe, da maternidade, não é o maior, nem o mais intenso e único, é o amor da criança que te causa essa sensação.
O amor de quem
cuida e convive com uma criança intensamente, de quem é responsável por sua
vida, uma tia, um tio, uma avó, um avô, padrasto, madrasta, ou até de alguém
sem parentesco algum, pode ser tão intenso e protetor quanto de uma mãe. O amor
nasce da convivência. Tu experimentas esse amor, por exemplo, quando tá na rua,
passa por brinquedinhos de um camelô e já lembra da criança, quando sente
saudade, quando se preocupa na doença, não quer vê-la sofrer e morre de medo de
perder essa criaturinha. Enfim, acredito que esse amor pode ser experimentado
na mesma dimensão, independente de ser mãe.
Outra situação são das mães que não sentem esse amor, seja por sofrerem com a depressão pós parto ou surpreendidas pela alta carga de demandas e responsabilidades que um bebê exige. A mulher se vê em crise, pelos julgamentos ou por sentir-se horrenda e monstruosa ao não corresponder essa lógica do "amor maior do mundo", por vezes não se percebem adoecidas e só intensificam seu estado de dor ao não buscar ajuda profissional. O mesmo julgamento cruel se dá com mães que abandonam os filhos, ao não considerar os fatores psicológicos, hormonais, sociais e estruturais que podem ter levado a essa atitude. Cada ser é único e experimenta as sensações de forma diferenciada, por isso a importância de parecer de especialistas ao invés de achismos ou execrações.
O amor, para além do sentimento, também é uma construção social, deste modo, o amor e o instinto materno nem sempre existiram nesses moldes na história da humanidade. A maternidade compulsória foi incorporada à nossa cultura com objetivos definidos e a coerção social, conceito de Durkheim, é um mecanismo utilizado na manutenção da cultura da maternidade compulsória, pois no modelo capitalista quanto maior for o excedente de mão de obra, maior também é a possibilidade de exploração dos seres humanos, que irão se submeter a qualquer oferta de trabalho por sua subsistência.
Mulheres são as máquinas reprodutoras de mão de
obra. A sociedade pressiona de diversas maneiras as mulheres para que sejam mães e formem família, tendo a romantização como arma das mais poderosas, que passa a ser utilizada de forma mais contundente a partir da queda da cultura dos casamentos
arranjados nas sociedades ocidentais, em que entra em cena a união por amor, e
o avanço da ciência com os métodos contraceptivos, que vieram a permitir à
mulher escolher. Para manutenção da ordem, se faz necessário influenciar nessa
escolha.
O romantismo nasce entre os séculos XVIII e XIX na Europa, junto com a transição para o sistema capitalista e pelas mãos da burguesia. E o dia das mães se oficializou no Brasil em meio ao seu processo tardio de formação do Estado capitalista industrial, início do século XX, e em sua comercialização, além do aquecimento da economia e do comércio, é vendido às mulheres que não existe amor igual ao de mãe, e a mulher que não vir a experimentar esse amor será incompleta, infeliz, sem amor, seca, e as que se negarem ser mães serão acusadas de egoístas.
É com essa pressão que as mulheres que optam por não ter filhos têm que conviver e algumas acabam por ceder, arrependendo-se mais tarde. E as mulheres que não podem gerar filhos sofrem também com essa pressão, se culpam e se martirizam pelo castigo de nunca poderem sentir esse amor. Poderiam adotar uma criança, mas vem os argumentos de que não é a mesma coisa, tem que ter meu sangue, meu DNA, o do pai também, e um monte de imposição que só levam a um caminho: a mulher como ser reprodutor.
Controlando nossos úteros e nossas
decisões, somos conduzidas à reproduzir a qualquer custo. Outra ferramenta que
reforça é a religião, na maioria cristãs, que encorajam o não uso de métodos
contraceptivos, pois interromper a reprodução humana configura "pecado", no
máximo uso da tabelinha e abstinência sexual, que além de pouco eficazes, não previnem de DSTs.
A realidade é que a mesma
sociedade que nos empurra para a maternidade é a mesma que depois não vai nos
dar uma lata de leite e nem cuidarão da criança para que a mãe possa trabalhar,
estudar, viver. Aliás, viver é algo que não pertence às mães, pois a vida delas agora
pertence aos filhos. “Meus filhos são a minha vida!” já ouviu isso? A anulação
feminina com a maternidade é tão natural que torna-se imperceptível.
A maternidade é muitas
vezes solitária. Uma criança exige atenção o tempo inteiro e essa atenção
compulsoriamente é responsabilidade da mãe, pois “quem pariu Mateus que o
embale”. Quer sair pra tomar um chopp com as amigas, mas tem um bebê? Vai
passar por julgamento com certeza, mãe não tem direito ao lazer, maternidade é
padecer, lembra? E isso se conseguir alguém pra “embalar o Mateus”.
“Mas se a criação for
compartilhada com o pai e se tiver rede de apoio é mais leve!” Não é bem assim.
Primeiro que mesmo com rede de apoio, ainda vai recair na mulher o maior peso
da responsabilidade por tudo, e dinheiro não será impeditivo de sofrer com o
machismo, os julgamentos e pitacos serão uma constante. E na real, na maioria, mulheres e
famílias não têm condições de pagar por uma rede de apoio, restando muitas
vezes para a mulher abrir mão do emprego ou entregar para a avó cumprir esse
papel “por amor”. O cuidado feminino é pago com “amor”.
Por amor, mulheres cuidam da casa, da família, do marido, reproduzem mão de obra e criam pra entregar ao mercado, tudo isso sem remuneração, pois as tarefas domésticas não são vistas da mesma maneira que um trabalho formal, são vistas como cuidado, como amor, e o cuidado pertence às mulheres. O capitalismo e o patriarcado dependem desse trabalho.
Ao interseccionar com raça e classe, observamos que as mulheres negras e pobres são as que mais assumem esse papel e de forma dupla, pois cuidam das suas crias e das de quem são pagas para cuidar, como babás e empregadas, com remunerações baixas e poucos direitos, lembrando que outrora, no período escravagista, nem remuneração havia. Não à toa a sociedade brasileira, racista e saudosa da escravidão, reagiu com muitas críticas em 2015 à legislação do trabalho doméstico.
Neste sentido, por
vivermos numa sociedade estruturalmente machista e racista, não se consegue
compartilhar de igual pra igual a responsabilidade de mãe e pai com sua cria,
nosso papel consolidado de cuidadora nos faz naturalmente assumir maiores
cargas de atenção do que o pai, e muitas vezes sem nem percebermos, nos
culpamos se nos ausentamos e falhamos nesse papel. O peso da responsabilidade
não é o mesmo, seja por preguiça e relaxo desse homem, seja pela conveniência
que eles têm de não terem sido socializados da mesma forma que nós, e por mais
maravilhoso e participativo que seja esse pai, muitas vezes nos vemos cara a
cara com a solidão.
A solidão de quando ele sai pra trabalhar e estamos integralmente com uma criança em casa. A solidão de dar conta de tarefas que eles se negam a assumir, seja com a desculpa de não possuir habilidade, de que a mulher faz melhor, que está cansado do trabalho, mesmo que a mulher também tenha um emprego, ela não tem direito ao descanso. A solidão de não sermos lembradas pelas amigas e amigos quando estamos com uma criança. Ninguém quer fazer programa com quem tem criança, a não ser as amigas mães que estão na mesma, daí dá-se as mãos e se ajudam, e se a mãe for casada ainda é esquecida pelas amigas mães solos muitas vezes, por ter guardada a impressão de que a casada não está sozinha, ela tem uma família, tem um marido, tem companhia.
Agora amigo pai pra fazer o mesmo, ainda não vi. Até porque
raras vezes a gente vai ver um pai completamente sozinho com crias, eles sempre
estão acompanhados e nem precisam nos procurar pra esse apoio. Observe por
exemplo num parquinho quantas crianças estão acompanhadas de um homem sozinho e
quantas estão com uma mulher sozinha. Eles quando estão no parquinho sempre têm
companhia, mas muitas mulheres não.
Um homem pai sozinho é rapidamente assessorado, é visto como herói, de tão raros que são. A esposa, a mãe, a sogra, a namorada, a amante, uma amiga, sempre alguém se compadece de um homem sozinho com uma criança, inclusive ajudam por preocupação com a criança também, já que o papel de cuidado não pertence aos homens e a criança pode estar assim malcuidada. A não ser que ele negue essa ajuda feminina e resolva assumir tudo sozinho, o que é bem raro também, chega a ser exceção, pois sentem o peso da solidão, da responsabilidade e rapidamente podem vir aceitar as ofertas femininas de cuidado.
É uma vantagem que não se enxerga, porque é naturalizada.
Para a mãe, resta a força pra dar conta de tudo, o estigma das mulheres
guerreiras. E quando entram em colapso pela sobrecarga, adoecem depressivas,
são mais uma vez julgadas como fracas ou cruéis, egoístas por negarem-se
a dar conta dessa missão divinal, uma fracassada.
Se chegaste até aqui, mana, deixo minhas sugestões: Se tu queres ser mãe, pesa tudo, pense no orçamento, nas atividades que deixará de exercer temporariamente por causa da criança, das anulações, leva alguns anos da vida. Se deseja dividir a criação com o pai na mesma casa, precisa pesar também a convivência com um homem, porque no final de tudo a carga maior vai ser tua, por mais alecrim dourado que ele seja, não tem como escapar disso porque a sociedade toda é estruturada pra ser assim, com o peso pesado para as mães, e a não ser que ele seja um ET, ele foi criado e socializado nesse mundo, com papeis definidos para homens e mulheres. E no momento que apertar peça ajuda, pois tu podes adoecer em qualquer momento, ou não.
Se o casamento pesar mais que a maternidade, te causar mais
problemas e infelicidade, caia fora! Por mais difícil que seja ou o tempo que
leve, te organiza e vai embora, em algumas situações é caso de vida ou morte,
infelizmente, mas pode ter certeza que vais dar conta muito melhor da tua vida
e da maternidade sem esse peso!
Se tu NÃO queres ser mãe, mantenha firme tua decisão. Não mude de ideia pra agradar quem quer que seja, principalmente homem, só se for tua vontade mesmo, não imposição. Não ceda, porque depois na solidão vai bater o arrependimento, não do amor da criança, mas das anulações e privações que tu decididamente já estavas disposta a não querer passar e vais te amargurar por isso, sem volta. Se vier a engravidar mesmo assim, pese bem a decisão, pois é teu corpo e tua vida que vai mudar.
Importante entender que filhos
não são poupanças para o futuro, nem posses, objetos ou em quem depositamos
nossos desejos não realizados, é incerto apostar no “quem vai cuidar de mim na
velhice”, seja pelo medo de ficar só, ou o filho vai se dar bem e te bancar,
enfim, um mundo de expectativas e responsabilidades num ser que sequer pediu
pra nascer. Filhos seguem a vida e não temos como controlar seus destinos. Medo
de ficar só nos mete em ciladas, cuidado! Não há nada de aterrorizante em morar
sozinha, nem de fracasso ou amargura, cultive sua autonomia, amor próprio e
seja feliz!
Se tu queres ser mãe, já ciente de tudo que foi dito aqui, mas não consegue engravidar, adote uma criança, não exite! O amor é idêntico, é o amor de uma criança cuidada por ti, que vai te chamar de mãe do mesmo jeito. Sempre digo à minha filha que tudo que a gente cuida bem e dá amor fica bem, e sempre nos responde de alguma forma. Nossas plantas ficam bonitas, dão flores se bem cuidadas, e uma criança dá o amor mais puro, independente se saiu ou não da tua barriga.
Nem cair em
conversa de que a criança adotada pode vir com personalidade do pai ou mãe que tu
sequer conheces. Caráter não vem em DNA, o ser humano é moldado em sociedade,
de acordo com o núcleo social que vive, ele vê e repete, e assim como é moldado
em casa, pela família, a sociedade também molda e apresenta diversas
perspectivas, e mais uma vez não temos controle. Filhos podem ser bons ou ruins
adotivos ou não.
E se não pode gerar e também não quer, não se martirize, nem se deixe abater. É difícil, mas infelizmente é essa a vida, precisamos nos defender e tentar viver da melhor forma. A maternidade compulsória, bem como a imposição do conceito de família tradicional, podem levar à realidade de violência, irritabilidade e frustrações. Uma criança precisa ser muito desejada e planejada, pois exige altas cargas de paciência, amor e estrutura para sua educação.
Que possamos refletir
mais sobre essa escolha e que não nos permitamos adoecer por coerções sociais.
Vamos sentir culpa, sendo mães ou não, por isso é importante ter noção da
estrutura que nos dita as regras para não cair no jogo, assumindo culpas que
não nos pertence, são impostas. Que nossos corpos e nossas decisões sejam
livres! Força sempre às mulheres, é urgente descolonizar nossos afetos!
terça-feira, 16 de fevereiro de 2021
Resumo: A documentação como método de estudo pessoal e diretrizes para leitura, análise e interpretação de textos - Severino
A eficácia do estudo e da aprendizagem se faz quando são criadas as condições para uma progressiva e contínua assimilação pessoal dos conteúdos, seja qual for a área do conhecimento, sendo necessária uma assimilação qualitativa e seletiva, bem como o entendimento de que se trata de uma tarefa eminentemente pessoal.
A prática da documentação é uma ferramenta importante, pois o saber constitui-se pela reflexão, que exige domínio de uma série de informações, que são adquiridas através da documentação realizada criteriosamente, não sendo suficiente somente ouvir aulas e ler livros clássicos. Este conhecimento ganha valor quando fica à disposição do estudante em qualquer momento da sua vida intelectual, ou seja, traduzido em documentação pessoal, preferencialmente em fichas, especificado em três formas: a documentação temática, a documentação bibliográfica e a documentação geral.
A documentação temática tem por objetivo coletar o que há de relevante para o estudo ou para realizar um trabalho específico, seguindo um plano sistemático com temas e subtemas da área do trabalho em tela, que podem ser tirados também das aulas, conferências ou seminários, bem como as ideias pessoais importantes, para que não se percam com o passar do tempo. As fichas de documentação temática formam um fichário com conhecimentos importantes de um curso, por exemplo, em que cada disciplina e suas partes essenciais determinam os títulos das fichas. Das aulas, os estudantes podem passar os apontamentos mais importantes para as fichas, sistematizando-as, fazendo-se o mesmo com os livros e leituras complementares do curso.
A documentação bibliográfica vem completar a documentação temática, pois estas se organizam com o critério de natureza temática. O fichário de documentação bibliográfica é formado por um conjunto de informações sobre livros, artigos, produções sobre determinados assuntos, proporcionando um rico acervo para os estudos. Deve ser realizada paulatinamente, de acordo com o contato com as leituras ou informes e suas informações transcritas em níveis mais aprofundados. Não há um tamanho padrão para estas fichas, ficando a critério do estudante.
A documentação geral organiza e guarda documentos úteis retirados de fontes perecíveis, como recortes de jornais, revistas, apostilas, etc., sendo arquivados sob títulos classificatórios de seu conteúdo, podendo servir de base para a documentação temática e bibliográfica.
A documentação em folhas de diversos tamanhos, embora dificulte a manipulação, tem a vantagem de permitir a substituição do fichário tipo caixa por pastas-arquivos, classificadores, que facilitam o transporte. Pode fazer o mesmo esquema de organização e classificação, por disciplinas, temas, etc.
O vocabulário técnico linguístico é um conjunto personalizado de termos para necessária compreensão da leitura como para redação, sendo os termos sistematicamente transcritos e explicitados. Por fim, o capítulo encerra com exemplos de ficha de documentação temática.
3º Capítulo: Diretrizes para leitura, análise e interpretação de textos
O capítulo apresenta diretrizes para leitura, análise e interpretação de textos diante das dificuldades enfrentadas pelos estudantes na exata compreensão de textos teóricos, em especial na ciência e filosofia, que acabam por reforçar desânimo e desencanto pelo pensamento teórico. Porém essas dificuldades não são insuperáveis e para tanto é necessário criar condições de abordagem e de inteligibilidade do texto que vão colaborar nesse sentido.
O autor antes de apresentar essas diretrizes aborda a função dos textos sob a ótica de uma teoria geral da comunicação, partindo da premissa que é através da transmissão de uma mensagem entre um emissor e um receptor que se dá a comunicação, sendo este o esquema geral que a teoria apresenta. O emissor é considerado como uma consciência que transmite uma mensagem para o receptor, outra consciência, deve então ser pensada e depois transmitida, tornando assim o texto-linguagem o intermédio pelo qual duas consciências se comunicam.
Durante este processo, o homem sofre uma série de interferências pessoais e culturais que podem prejudicar a objetividade da comunicação, sendo necessária certas precauções para garantia dessa objetividade na interpretação da comunicação.
Em primeiro lugar, delimitar uma unidade de leitura, sendo a unidade um setor do texto que forma uma totalidade de sentido, como um capítulo ou uma seção. Para fins de estudos, a leitura deve ser feita por etapas e de maneira contínua, só passando para a unidade seguinte após terminada a análise da unidade em questão, sendo possível ao final refazer um raciocínio geral do livro, sintetizando-o.
O passo seguinte é análise textual, que é a primeira abordagem para preparação da leitura, fazendo uma leitura seguida e completa da unidade em estudo, atenta, mas ainda corrida, para assim tomar contato com toda a unidade garantindo uma visão panorâmica de raciocínio do autor, aproveitando para levantar todos os elementos básicos para compreensão do texto, assinalando os pontos passíveis de dúvidas.
O primeiro esclarecimento é buscar dados a respeito do autor do texto, em seguida o vocabulário, levantando conceitos e termos que são desconhecidos pelo leitor, assim como podem abordar fatos históricos, outros autores e outras doutrinas também desconhecidas, e nesta primeira abordagem todos os elementos precisam ser transcritos numa folha à parte, para pesquisa em dicionários, textos de história, manuais didáticos, bem como outros estudiosos e especialistas da área, configurando assim uma tríplice vantagem: diversifica as atividades no estudo, propicia informações e conhecimentos que passariam despercebidos, por fim possibilita uma leitura mais agradável.
Isto feito, a análise textual pode se encerrar com uma esquematização do texto, obtendo uma visão de conjunto da unidade, sendo confundido muitas vezes com o resumo do texto, mas este processo não realiza ainda todas as exigências para um resumo lógico do pensamento contido no texto. O esquema permite somente uma visão global do texto.
A segunda etapa, que é a análise temática, vem dar conta da compreensão da mensagem global, procurando ouvir o autor, apreender sem intervir, fazendo perguntas que trarão em suas respostas essa compreensão. Em primeiro lugar, busca-se revelar o tema ou assunto da unidade, que nem sempre está em seu título, além de captar a perspectiva de abordagem do autor. Em seguida, capta-se a problematização do tema, sendo condição básica para compreensão do texto apreender o que “provocou” o autor. Devidamente captada, busca-se o que o autor fala sobre o tema, como responde a essa problemática, qual sua posição, qual ideia defende, o que deseja demonstrar, sendo revelada assim a ideia central, proposição fundamental ou tese. Na explicitação desta tese deve ser usada sempre uma proposição, uma oração, um juízo completo, não somente uma expressão, como ocorre com o tema. A análise temática é que servirá de base para o resumo ou síntese de um texto.
A terceira abordagem do texto visando sua interpretação é a análise interpretativa. Na primeira etapa procura-se situar o pensamento geral do autor com o pensamento desenvolvido na unidade, esse pensamento em seguida permite situar o autor no contexto mais amplo da cultura filosófica em geral. Nessas duas etapas ao mesmo tempo busca-se o relacionamento lógico-estático das ideias do autor no conjunto da cultura daquela área, bem como o relacionamento lógico-dinâmico de suas ideias.
Em seguida, de um ponto de vista estrutural, explicitam-se os pressupostos que o texto implica, que são ideias que nem sempre aparecem evidentes no texto, são princípios que justificam a posição assumida pelo autor muitas vezes. A crítica é o passo seguinte da interpretação, buscando-se a formulação de um juízo crítico, fazendo um julgamento do texto pela sua coerência interna ou sua originalidade, alcance, validade e sua contribuição ao tema.
A quarta abordagem é a problematização, que visa o levantamento dos problemas para discussão, que podem ser desde problemas textuais até os mais difíceis problemas de interpretação. Importante observar a distinção entre a tarefa de determinação do problema e a problematização geral do texto, pois esta agora é tomada em sentindo amplo para discussão e reflexão.
Por fim, a síntese pessoal, resultante da discussão da problemática levantada e a reflexão a que ele conduz, que está ligada a construção lógica de uma redação, sendo um valioso exercício de raciocínio, garantindo o amadurecimento intelectual.









